segunda-feira, 9 de março de 2026

O Sintoma Donald Trump

Por: Michael Jochum; Álvaro Wolmer. Via Marilda Bassi e via Blaut Ulian Junior*

Melhor texto sobre Donald Trump (e serve para o caso Bolsonaro) que já li. A tradução foi feita por IA. Pra quem preferir ler o texto original, é só acessar minha postagem anterior. 

"Eu costumava me perguntar como era possível que Trump pudesse ter vencido em 2016, e novamente em 2024, dado o quão emocionalmente tóxico e depravado ele é.
Não me pergunto mais. Acho que ele venceu exatamente por esse motivo. Porque ele carregava ao menos um estilhaço quebrado para refletir os estilhaços quebrados em milhões de outras pessoas.
Se você é racista, encontrou seu cara. Se você é misógino, encontrou seu cara. Se o dinheiro é sua única religião, encontrou seu cara. Se seu coração está blindado e fechado, encontrou seu cara. Se você zomba de deficientes, encontrou seu cara. Se a inteligência o deixa inseguro, encontrou seu cara. Se você é um predador sexual, encontrou seu cara. Se você negocia com humilhação, conspiração e sujeira, encontrou seu cara. Se você nunca fez uma única hora de inventário emocional, encontrou seu cara. Se você engana, dá calote em prestadores de serviço, negligencia suas obrigações e chama isso de esperteza, encontrou seu cara. Se você mente com a mesma facilidade com que respira, encontrou seu cara. Se a crueldade parece força, encontrou seu cara. Se o ressentimento branco é sua comida afetiva, encontrou seu cara. Se seu ego é um buraco negro que título nenhum pode preencher, encontrou seu cara. Se o belicismo alimenta seu ego, encontrou seu cara. Se a empatia parece fraqueza e a dominância parece oxigênio, encontrou seu cara.
Se ele carregasse apenas uma ou duas dessas patologias, poderia ter sido descartado como apenas mais um homem barulhento e danificado. Mas ele carregava um banquete delas. Esse era o apelo. Milhões puderam se localizar em algum lugar em meio aos destroços. Eles não precisavam concordar com tudo. Eles apenas tinham que reconhecer um pedaço de si mesmos ali.
Nunca foi realmente sobre ele. Foi sobre a validação. A absolvição. A permissão. Ele não inventou o ressentimento; ele o amplificou. Ele não criou a crueldade; ele a normalizou. Ele deu a milhões o alívio inebriante de ouvir seus impulsos mais feios ecoados em volume de comício.
Trump é um sintoma. A doença mais profunda é coletiva. Se existe uma frase que define seu poder, é esta: “Ele diz as coisas que eu estou pensando.”
E essa é a parte que deveria nos causar calafrios.
Porque o que diz sobre nós o fato de tantos estarem pensando aquelas coisas? Que dezenas de milhões de americanos abrigavam ressentimentos tão profundos, tão fervorosos, que estavam simplesmente esperando por um demagogo para batizá-los como virtude? Que, após décadas de suposto progresso em raça, gênero e igualdade, tantos homens brancos se sentissem tão ameaçados, tão deslocados, tão furiosos, que a crueldade se tornou uma plataforma política?
Talvez estivéssemos vivendo em um paraíso de tolos, confundindo silêncio com cura, polidez com progresso.
Agora a máscara caiu. Agora nós sabemos. E saber é um lugar muito mais perigoso para se estar."

*– Michael Jochum, Não Apenas Um Baterista: Reflecções sobre Arte, Política, Cachorros e Condição Humana.
Álvaro Wolmer

quarta-feira, 4 de março de 2026

Os Próprios Cristãos Confundem Tudo Sobre o Apocalipse e o Armageddon.

Por Belarmino Mariano*

Muitos cristãos imaginam que o Apocalipse, seja apenas um livro sagrado dentro do Novo Testamento, escrito pelo Profeta João, um dos apóstolos de Jesus, que já era adulto e viveu com Jesus e os outros apóstolos, mas só escreveu seus livros como: "Evangelho de João, três epístolas (I, II e III João) e o livro do Apocalipse durante seu exílio na ilha de Patmos (por volta de (95 d.C.).

Como poderia o apóstolo João, um homem adulto, pescador da Galileia e irmão de Tiago, ter participado do grupo restrito de Cristo, presenciando momentos cruciais como a Transfiguração, a Última Ceia e a Crucificação, tendo visto a Ressurreição e ainda ter vivido mais 95 anos, depois da morte de Jesus?

Se o apóstolo João tivesse uns 35 anos, quando Jesus foi crucificado, 35+95, daria 130 anos de vida. Se João tivesse escrito o Apocalipse no ano 65 d.C., ele teria morrido com 100 anos, mesmo difícil, até seria admissível. 

Mesmo assim, seria estranho, pois houve uma grande perseguição aos Cristãos, tanto pelos romanos, quanto pelos israelitas e João estava na linha de frente, ou na vanguarda do Cristianismo.

A outra questão que nos inquieta na atualidade é sabermos que os próprios Cristãos confundem eles próprios sobre a ideia de metáfora e realidade literal dos textos sagrados, como o Apocalipse e outros, sem ao menos fazerem uma exercício de raciocínio a respeito do significado e conceito para determinados termos bíblicos como: Apocalipse e Armageddon. 

O Apocalipse é o último livro do Novo Testamento da Bíblia Sagrada do Cristianismo, escrito pelo apóstolo João, cujo termo grego apokalypsis significa "revelação de Deus".

"O livro retrata uma revelação de Jesus Cristo dada a João sobre o fim dos tempos, a própria volta de Cristo, o juízo final e a criação de um novo céu e Nova Terra, trazendo esperança final aos fiéis e destruindo os infiéis no Armageddon final.

O que as pessoas não entendem é que Apocalipse é uma linguagem ou forma exagerada de escrever (hipérboles), apelando para fenômenos misteriosos, místicos ou mitológicos, sobre o futuro da humanidade pecadora e infiel a Deus.

Talvez, o que muitos cristãos não saibam, mais, os primeiros escritores com esse gênero literário apocalíptico, foi o Profeta Daniel no Antigo Testamento. Esse ideia profética arrebatadora, do fim dos tempos e da volta de Deus para julgar os pecadores infiéis.
Na mesma linha, iremos encontrar essas imagens e imaginações de linguagem apocalíptica nos profetas Ezequiel, Isaías e Zacarias. Todos focados nos pecados dos israelitas e prevendo um retorno de Deus, cujo objetivo é julgar os pecadores e purificar Jerusalém do mal.

Essa dialética do bem contra o mal e a humanidade totalmente perdida e dominada pelo demônio, precisando ser resgatada e salva espiritualmente. Inclusive, a ideia central é que Deus destruirá a Terra (Armageddon) e construirá uma Nova Terra, uma Nova Jerusalém, completamente livre do mal.

Então fica claro que, se o Apóstolo João teve forças para escrever esse livro, quando estava com mais de 100 anos ele não partiu do nada, ou apenas de sonhos e revelações divinas. Certamente, teve contato com as palavras do profeta Daniel e outros.

O livro é de uma linguagem simbólica, hiperbólica, imaginária e distópica (profecias apocalípticas). Diferente de muitas interpretações ou entendimentos sobre guerras humanas (geopolítica atual), o livro de João descreve "batalhas espirituais", "conflitos de egos dentro do próprio seres humanos e de sete igrejas e sete selos ou incógnitas, bem como, o Deus que volta a Terra para o julgamento do mal e finaliza com o Armageddon e o triunfo final de Deus.

Ou seja, o objetivo final é demonstrar que Deus vencerá o pecado e o mal, restabelecendo uma "Nova Jerusalém", não como um lugar, um país ou território entre vales e montanhas, mas um "Jerusalém Espiritual", onde não haverá mais dor ou morte para aquele passar pelo Juízo Final.

Logo, essas guerras geopolíticas, tanto do Antigo Testamento, quanto das Cruzadas medievais entre Cristãs e Mouros ou as atuais disputas entre sionistas, palestinos e/ou iranianos, com direto interesse do imperialismo dos USA e países da Europa, não se aplica em nada ao bíblico apocalipse.

Por que refletir sobre essas questões na atualidade? Bem simples, governos ditadores, extremistas de direita, que se dizem israelitas ou cristãs, utilizam determinadas interpretações da bíblia para justificar massacres, guerras, genocídios. Quando na verdade as guerras são puramente por interesses políticos, econômicos e territoriais.

Então provocam invasões, atentados, massacres de civis e propagam nos grandes meios de comunicação uma "batalha do bem contra o mal". Enquanto isso, pastores, padres e outros plebisteros entoam discursos de ódio, no final dos tempos, e da chegada do apocalipse e Armageddon final. 

Mesmo que o Apóstolo João (16:16), comente que os reis da Terra, liderados por forças demoníacas, se reúnem para guerrear contra Deus. Não podemos deixar o Islamismo de fora dessa perspectiva apocalíptica, pois é uma religião de descendentes de Abraão, mesmo que o patriarca tenha abandonado sua descendência de Ismael a própria sorte.

No Islamismo, o termo apocalipse (al-Qiyamah), explica sobre o fim dos tempos e o juízo final. No Alcorão os textos estão dispersos e focam na corrupção do mundo, o surgimento de Dajjal (falso profeta), o retorno de Jesus (Isa) e o dia do juízo final.

Nas três religiões monoteístas do Oriente Médio (Judaísmo, Cristianismo e Islamismo), parece que o bem ou o mal, estão neles próprios e não na vontade dos seus deuses, mas em nome deles se matam e cometem todo tipo de atrocidades, para além do mundo espiritual. 

Aqui e agora a questão central é o dinheiro, o poder político e a disputa territorial aos extremos da irracionalidade, em que as armas de destruição em Massa, não foram enviadas por nenhum Deus. Logo, o tal Armageddon pode ser apenas mais uma invenção humana e Deus é apenas um bode expiatório da própria maldade humana.

*Por Belarmino Mariano. Da Série Paradoxos Bíblicos. Imagem das redes sociais.
Fonte: Bíblia On-line.
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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Mulheres, quem muito escolhe, sempre fica com o melhor

Por Belarmino Mariano*

Quem muito escolhe, sempre fica com o melhor! Nem sempre! Gritou Dona Eulália Aparecida Galvão, mulher experiente e vívida. Eu mesmo, fiquei entre o traste do pai dos meus filhos e outros cinco. Minhas melhores amigas, sem muita frescura, se deram bem melhor que eu.

Nem mesmo Amélia, que era uma "mulher de verdade", real, mas idealizada por
Ataulfo Alves e Mário Lago, teve tanta certeza em suas escolhas. Entre uma das várias mulheres que poderia ser, preferiu ser submissa, dedicada e sem vaidades, escolheu ser  exclusivamente recatada e do lar.

Sempre achei que Amélia faria uma excelente escolha e com tanta beleza, com tantos atributos de uma "mulher de verdade", escolheu passar fome ao lado do amado que nunca teve nada, mas que, se tivesse, certamente viraria as noites em serestas, bares e boêmia.

Escolha certa foi de Zeli Cordeiro (Zeni), que  sem muito arrodeio, escolheu Mário Lagos. Era uma mulher de esquerda, avançada e moderna. Logo cedo se envolveu com o Comunismo, com as lutas sociais e foram felizes, sem submissão machista. É verdade que passaram perrengues com a perseguição política e prisões de Lago, mas nada tem haver com escolher demais.

Não podemos confundir a doméstica e servil Amélia dos Santos, da música de Ataulfo e Lago, com a Imperatriz Amélia de Leuchtenberg (Franco-Bávara) que foi a segunda esposa de Dom Pedro I e se tornou a imperatriz consorte do Brasil por três anos. Essa Amélia, apesar de ter se tornado imperatriz, ficou viúva muito cedo e, depois de 5 anos de casada, com a morte de D. Pedro, ela se vestiu em vestidos pretos e entrou em um luto profundo, sem nunca mais querer saber de homens.

Amélia dos Santos, queria e poderia ter sido um monte de coisas, escolheu tanto, mas acabou se tornando a doméstica de Aracy de Almeida. Não que ser doméstica seja um problema de escolhas. Na maioria dos casos, não houve oportunidade para outros degraus e a aceitação cativa nos prende para sempre.

Dona Eulália Galvão ainda disse que ficava pensando na esposa do profeta Malaquias, que nem mesmo o nome e origem são citados no livro sagrado. Teve tantas escolhas, tantos outros guerreiros, pescadores ou camponeses a lhe cobiçar, mas nem o direito de escolha lhe permitiram fazer. 

Ela foi "jogada na cova dos leões" e seu varão, que tantas profecias fez, nenhuma vez citou seu nome. Para aquele o varão Malaquias era uma serva do marido, "uma Amélia dos tempos da Bíblia" e foi completamente apagada da história do povo escolhido por Deus, como se as mulheres não tivessem nenhuma importância, naquele reino, onde poderíam serem apedrejadas até a morte.

Não sabemos quem escolheu quem?!? Mas ficamos a imaginar a Lindaura Martins, esposa oficial de Noel Rosa, uma mulher do lar, sabendo que ele amava outra, ou era profundamente apaixonado por Ceci, sua musa inspiradora. Apesar de outros namoros e romances, Noel Rosa deixou um grande legado de amor, paixão e sofrência romântica por Ceci, que sempre foi tema para suas composições.

Juraci Coreia (Ceci) era feliz como dançarina de Cabaré, vivia as noites cariocas e a boemia dos homens, bares, tabagismo e bebidas alcoólicas. Para a sociedade da época, ela era  uma libertina, o avesso de Amélia ou Lindaura e foi quem dilacerou o coração de Noel. 

Entre sua ardente paixão, dor e sofrimento talvez tenha sido o poeta, cantor e compositor que escolheu retratar uma mulher brasileira com tanta paixão. Mas a música popular brasileira é cheia de outras musas entre elas as morenas cariocas, baianas ou tropicanas.

Músicas de Noel como:  "Último Desejo", "Pra que Mentir" e "Dama do Cabaré". Entre tantas, estão nos álbuns de dezenas de intérpretes e dão  ao Brasil o legado de tantas composições em que as mulheres são grandes musas inspiradoras, mas em muitos casos, apenas musas, pois na realidade, suas escolhas quase sempre lhes colocam nas mãos de homens brutos, agressores e violentos.

Como diz o compositor Luiz Gonzaga Júnior (Gonzaguinha), "Matilda, hô Matilda, o bicho ruim quando não tem do que dá cabo, primeiro morde o rabo e depois vai se comer (...)". Poderia ter escolhido outros poemas de amor de Gonzaguinha, como "Sangrando", "Lindo Lago do Amor" e "Espere Por Mim, Morena",  pois neles a paixão, a entrega e a beleza das relações humanas são muito mais intensas.

Mas a ideia aqui foi apenas alertar as mulheres para suas melhores escolhas, pois muitos homens se enquadram no "universo do bicho ruim, perverso e maligno". Em especial, aquele que se veste de santo e nunca se coloca no lugar da outra. Diferente de Chico César, que mesmo mal interpretado, nos alertou que "sabe como pisar no coração de uma mulher, pois já foi mulher", já esteve nesse lugar de amar profundo, de se cortar por dentro e sangrar de paixão, diante de escolhas, muitas vezes frustradas.

Chico César ainda assim, nos diz para irmos "vestidos de amor, para o amor encontrar". Para nos "vestirmos de utopia e sairmos com as nossas namoradas, mesmo com o riscos de baques atrapalhados".

*Por Belarmino Mariano. Quando março chegar. Imagem das redes sociais.

Caminhada

.  Por Belarmino Mariano*

Além do silêncio e da calmaria, o que me impressiona aqui é não saber onde estou e tenho uma ligeira sensação de que me encontro em lugar nenhum. Diria mais, se trata de um lugarejo pequeno e a paisagem urbana é de povoado ou distrito isolado no meio do nada. Pelo olhar geográfico, se encontra entre cinco ou seis ruas, no entorno de uma pedra grande.

Não existe uma periferia urbana, pois tudo se resume ao centro histórico habitável, em que, bastam de 20 a 30 metros da pedra grande, para se ver o lado de fora daquele lugarejo encantado.

Na verdade, a pedra nem é tão grande assim, se trata de um lageado, circundado por planuras, em meio a um emaranhado de serras do planalto cristalino. Nas áreas de terra, dos poucos arruados, foram feitos calçamentos irregulares de fragmentos rochosos.

Um trabalho de suor e sonho dos poucos moradores e fundadores pioneiros. Como mencionei, um cantinho tranquilo e calmo, onde é possível ouvir o sumbido dos ventos, orquestrando uma cantilena suave e agradável de som e brisa fria, típicos de regiões com acidentes geográficos.

Lá não existe eletricidade instalada, mas, ao lado da estrada de acesso ao povoado, existe uma linda lagoa de águas cristalinas que abastece aquela comunidade com suficiência. Também é um lago no meio do nada, uma formação natural típica do relevo acidentado e do côncavo e convexo por entre as serras.

Certamente é um reservatório de águas das chuvas, que caem e escorrem para aquela baixada, através de um paredão rochoso e outras encostas cristalinas de uma geomorfologia fantástica.

O clima ameno em meio a tropicalismo regional, nos faz lembrar da ideia de refúgio ecológico em meio aos ecossistemas de planaltos continentais, sem uma exatidão altimétrica, as indicações geográficas apontam para médias de 550 a 600 metros em relação ao nível do mar.

Os moradores daquela redondeza são todos negroides de origens africanas e, conta a lenda que escaparam de um navio negreiro que afundou na costa do nordeste brasileiro a cerca de 300 anos, quando se chocou contra rochedos marinhos das terras da nação Potiguara.

Dos destroços da embarcação, salvaram algumas ferragens como foices, machados e facas que eram usadas para escambo com o Potiguara. Entre os mortos e feridos, não restou quase ninguém, em especial da tripulação de homens brancos que comandavam aquela nau afundada pelos traiçoeiros arrecifes de corais.

Dos pioneiros, apenas um leva de 08 negros jovens e 03 mulheres negras que, no desastre fatal, juntaram tudo o que podiam e ao amanhecer, se embrenharam na mata virgem, se afastando ao máximo da costa. Não sabiam onde estavam e viram ao longe um grande grupo de guerreiros locais se aproximando do que restava daquele naufrágio.

Eles estavam se preparando para um motin e já vinham movimentado os braços e pernas para se libertarem das amarras. Quando cerca de 15 ou 20 negros conseguiram se liberar das amarras, entraram em confronto corporal contra tripulantes e na escuridão da noite, aquele conflito gerou a perda do controle da embarcação.

Isso era o que contavam os mais velhos. Eles chegaram aqui como escravizados, mas o mar os libertou, antes mesmo de atracarem na praia. Como fugiram assombrados com o desastre e a imensidão de terra e mar, não conseguiram contar os mortos, mas a tripulação era de aproximadamente uns 180 homens e mulheres amarradas em cordas e no fundo do tumbeiro, era quase impossível escapar.

Não sabem precisar o ano e nem o local exato, nas pelas histórias dos velhos, viajaram mais de 15 ou vinte dias, se esgueirando por entre as margens do grande rio curimataú (do tupi kurimata-úna), até chegarem as serras com pedras de bocas e barro avermelhado. Mas ainda seguiram por mais alguns dias até se instalarem naquele esconderijo encantado.

Eles dizem que foram prisioneiros da escravidão, pois seus antepassados ficaram mortos no fundo do mar e na África mãe. Aqui na terra firme, por entre as serras e caatinga que seca no verão e verdeja com as chuvas, eles se acosturam e vivem o silêncio e a calmaria dos diasce noites, mas ainda se assombram com o desconhecido.

Quando cheguei a esse lugar estava perdido, caminhava por trilhas incertas e havia começado uma grande chuva, com relâmpago e trovão. Eles me acolheram e, mesmo desconfiados, me deram guarida, um café quentinho com cuscuz e carne cozida. Juro que, com pingos fortes de chuva nos telhados e nas pedras, nem queria acordar.

*Por Belarmino Mariano. Da série Sonhos.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Um Cafezinho quente e a mordida em um pão

Por Belarmino Mariano*

Bom dia pessoal, mak terminou o carnaval e já estamos em 23 de fevereiro. O ano mal começou e já temos quase 60 dias de muito sol e muita chuva. Já estamos na quaresma e nada como o pão nosso de cada dia. 

Mas, nem tudo é sobre pão com queijo de coalho. Às vezes é sobre um pingado na padaria do supermercado. Um cafézinho moído na hora, com leite. Mesmo que outras delícias estejam expostas no balcão.

O queijo você pega do setor de fatiados, o pão você pega nos cestos de pão e o rapaz que passa o café faz o sanduíche na hora. Não fica tão caro quanto os cafés de aeroportos ou shoppings.

Aqui no Supermercado Bem Mais de Guarabira é assim. Não é nenhum comercial, mas gosto do atendimento e da atenção dos trabalhadores desse estabelecimento.

Sempre compro café São Braz em grãos por aqui. Notei que não tinha nenhum pacote na seção. Indaguei para uma atendente, se era possível ter em estoque? 

Ela foi em busca da informação. Enquanto tomava meu café, ela chegou com alguns pacotes de café bem grão. Posso dizer que fui muito bem atendido em todos os sentidos. Ela enquanto se aproximava disse, aproximou um dos pacotes no rosto e disse: "o café em grãos é muito cheiroso".

Por Belarmino Mariano. Da Série Cotidiano. Imagem do autor.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

“O agente secreto” e as Travessuras do Tempo.

Por Lau Siqueira*

No Diário de Vanguarda, algumas impressões sobre o filme O agente secreto. Link nos comentários. “O agente secreto” e as travessuras do tempo.

Finalmente começou o ano de 2026. O Carnaval acabou e já se passaram alguns dias desde que assisti “O Agente Secreto”. Não surpreende que o filme tenha agradado tanto público e crítica no exterior. São duas horas e quarenta minutos sem um único instante de monotonia. Saí do cinema sabendo que não tive olhos nem ouvidos para ver, sentir e ouvir tudo. 

O que vi foi um monolito. Uma história densa sendo contada enquanto outras tantas histórias são sugeridas e permaneceram abertas. Destaco inicialmente uma trilha sonora que realiza um percurso que vai da psicodelia de Harpa dos Ares, de Lula Côrtes e Zé Ramalho, aos clássicos do romantismo brega de Waldick Soriano. Não é por acaso que o cinema brasileiro está conquistando o mundo.

O filme oferece uma fratura exposta da nossa história recente com flashes de uma tragédia cultural brasileira que se moderniza, mas é permanente. Não se trata apenas de mais um roteiro sobre alguns dos muitos efeitos nefastos da ditadura brasileira. O diretor Kleber Mendonça Filho oferece outras tantas conexões surpreendentes. Revela o tanto de ficção que há na realidade e vice-versa.

O roteiro convida a viajar, sem alardes, nas quimeras do Brasil real. Mostra um país onde ainda pulsa uma normalidade repulsiva, refletida para muito além dos fatos. A exemplo do menino Miguel. Negligenciado no elevador, pagou com a vida por não receber a mesma atenção que sua mãe dava ao filho do prefeito. Ou nas iluminuras que celebram o poeta Miró da Muribeca. Kleber nos mostra que cinema pode ser também uma declaração de afeto.
 O roteiro percorre os modelitos da antipolítica e da necropolítica que sempre se blindaram nos mantos da falsa moralidade. Mostra a crueldade e a inocência convivendo sem culpas ou distâncias disfarçadas. O diretor soube captar a dimensão milimétrica de uma história que se alimenta do passado e que se faz cada dia mais fortalecida para o bem e para o mal.

Destaco ainda a escolha do elenco. Não importa em quantas cenas cada ator e cada atriz surge na tela. Todas as cenas são surpreendentes e contribuem decisivamente para que o filme seja o que é: um compacto de intensidades. Podemos dizer que há um protagonismo coletivo muito feroz. Cada corte é uma janela de infinitos. Tudo se multiplica e exige uma atenção permanente do público.

Da primeira até a última cena parece que há um rascunho sociológico de onde o diretor extrai um realismo fantástico. Aliás, a primeira cena poderia ser um curta. É uma história com começo, meio e fim. E é como um sumário do que ainda viria surpreender mais e mais. A banalização da morte, o olhar seletivo sobre a violência e a corrupção policial. A distância abismal entre crime e castigo. Tudo está posto.

Todavia o roteiro também oferece outras compreensões. É um convite aberto para outros olhares. O filme de fato escancara a espinha dorsal de uma ditadura. Mostra uma estrutura onde a corrupção vai tecendo destinos com sua crueldade presumida. O cotidiano é sustentado nas violências silenciadas. Dói saber o quanto a cultura autoritária permanece, mesmo não sendo mais tão absoluta.

Na estampa de situações reais, a subjetividade parece um fio invisível customizando o tempo. Uma Arca de Noé de memórias atemporais. O infinito reside nos detalhes de uma época em que fora dos calabouços a vida também pulsava seus medos e suas guilhotinas normativas. O filme revira memórias. Especialmente aquelas que não estão no roteiro.

A narrativa construída parece infinita e vai habitando lentamente a memória coletiva de diferentes formas. Faz revelações sem o charco incerto das certezas. Mostra o quanto somos ainda incipientes diante dessa abstração que é o tempo linear. Essa régua rasgando calendários. Como se o medo fosse uma perna cabeluda atravessando a praça.

Mesmo nesse ambiente de dissonâncias messiânicas em que vivemos, o cinema brasileiro vive um grande momento. A repercussão mundial da produção audiovisual brasileira começa a se estabelecer como um destino natural. “O agente secreto” é um filme para ser visto e revisto. Aguça uma sensibilidade que nos ajuda a ver o mundo sem a lente opaca das ilusões perdidas.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

O Processo de Enlatar a Família Conservadora ou Tradicional Segundo a Bíblia Sagrada

Por Belarmino Mariano*

Depois das muitas hipocrisias em latas de conserva e das fakes news da extrema direita bolsonarista, inclusive com muitos idiotas que não entenderam nada sobre a crítica feita pela Acadêmicos de Niterói, com as latas de conserva, uma metáfora em que os rótulos das latinhas não correspondiam ao conteúdo dentro delas, juro que passei a me preocupar com a saúde mental e com a disfunção cognitiva de algumas pessoas.

Depois que vi alguns cidadãos ditos de bem, "honestíssimos", usando IA para colocar fotos de suas famílias em latinhas influenciadas, não sei por quem, percebi que a confusão estava feita, pois as bolhas bolsonaristas estavam funcionando a todo vapor e, as redes de internet, alimentando esse fantástico mundo de idiotas funcionais.


À primeira vista, tudo parecia uma brincadeira de memes entre grupos de esquerda e de extrema direita. Para o pessoal da extrema direita, bastava pegar uma foto com o marido, esposa e filhos para postar em um latinha com os dizeres "minha família é conservadora" e um "100% Deus, Pátria e Família".

Ao mesmo tempo em que políticos, pastores e influences da extrema direita, passaram a proferir ataques à escola Acadêmicos de Niterói e aos políticos da esquerda. A ideia era bem simples, alimentar uma visão de que as esquerdas são contra a família tradicional ou conservadora brasileira.

E o que é essa família tradicional ou conservadora? Um casal hétero, com filhos? Papai, mamãe e filho, como dia a Bíblia Sagrada. Mas será que na Bíblia é assim mesmo? Nada contra os textos sagrados, seus dogmas e seu doutrinamento. Nada contra os líderes religiosos éticos e praticantes da fé, mas parece que existem problemas atuais com a sua interpretação.
Mas parece que alguns líderes religiosos estão usando a Bíblia para negar a ciência, para controle social e ascenção do poder político, para violentar mulheres, estimular a xenofobia e praticar corrupção e adultério entre os membros das congregações.

Segundo a Bíblia, o Patriarca Abraão, teve três mulheres:
1) Sara: Esposa principal, mãe de Isaque, o herdeiro da promessa;
2) Hagar: Serva egípcia de Sara, mãe de Ismael, primogênito de Abraão e; 
3) Quetura: Esposa/concubina com quem teve seis filhos após a morte de Sara: Zinrã, Jocsã, Medã, Midiã, Isbaque e Suá. Essa é uma família conservadora, tradicional? O mais importante é observarmos com a leitura do texto sagrado que essas mulheres viviam em conflito, ao ponto de Abrão expulsar Hagar e Ismael para o deserto a mando de Sara.

Isaac, filho de Sara com Abrão, com 40 anos, se casou com Rebeca, trazida da Mesopotâmia para ser sua esposa, e tiveram dois filhos, Esaú e Jacó.

Esaú teve três esposas de origens distintas (Hititas e Cananeias), o que gerava muitos conflitos. Eram elas: 1) Ada (ou Basemate, filha de Elom); Oolibama (filha de Aná) e; 3) Basemate (ou Maalate, filha de Ismael). De acordo com o texto sagrado, Isaque e Rebeca, seus pais, não concordaram com esses casamentos e deixaram Esaú e seus descendentes fora da partilha, perdendo seus direitos patriarcais, incluindo a primogenitura e a bênção espiritual. Essa é uma das primeiras e tradicionais famílias que aparecem nos textos sagrados.

O segundo filho de Isaque foi Jacó, que teve quatro mulheres, sendo duas esposas oficiais e duas concubinas (servas), com as quais teve 12 filhos e uma filha, segundo a Bíblia. As esposas principais eram as irmãs Lia e Raquel, enquanto Bila (serva de Raquel) e Zilpa (serva de Lia) foram dadas a ele para gerar filhos devido à rivalidade e à infertilidade das primeiras.

Sou hétero, de uma família tradicional, de origem pobre, tive um primeiro casamento, e um filho e do segundo casamento, duas filhas. Mas em momento algum, foram convívios com as duas mulheres. Mas vejo que essas famílias que se dizem conservadoras e tradicionais são muito marcadas pela hipocrisia.

Então entendo que essas situações bíblicas fogem em muito a ideia de uma família conservadora tradicional, a não ser pelo fato de um patriarcalismo machista e de  poligamia explícita. As mulheres eram relegadas à condição de aceitar um homem com várias esposas e com as suas amantes serviçais, lhes servindo sexualmente.

A Bíblia ainda demonstra que  outros líderes, como o Rei David, com cerca de oito esposas, além de dezenas de outras mulheres como amantes e serviçais.  As principais esposas nomeadas são: Mical, Ainoã, Abigail, Maaca, Hagite, Abital, Eglá e Bate-Seba. 

Diz o texto sagrado que Bate-Seba era esposa de Urias, o hitita, um de seus soldados/generais de confiança, após vê-la tomando banho, David passou a desejar-lhe, até que ordenou a morte de seu marido Urias em batalha  para ficar com a esposa.

Que bom exemplo da família tradicional e conservadora?  Se pesquisarmos mais casos desses líderes bíblicos, veremos péssimos exemplos, do que muitos pastores e padres divulgam como modelo bíblico de família. Modelos que nem eles próprios conseguem praticar.

Será que Jesus Cristo, que vivia entre pescadores, leprosos e prostitutas, pregando um reino de comunhão, humilde e compaixão, considerava essas tais famílias conservadoras e tradicionais, o modelo ideal?

Parece que não. Em Mateus (12:46-50) e (Marcos 3:31-35), "ao ser informado de que sua mãe e irmãos o procuravam, Jesus questionou: "Quem é minha mãe e quem são meus irmãos?", apontando que sua verdadeira família são os que obedecem à vontade de Deus".

Parece que Jesus nos ensina que para além de uma família tradicional, como pai, mãe, filhos, irmãos, primos etc., apesar de não  negar totalmente a sua família biológica, ele aponta oara ou modelos de família, como a espiritualidade, em que, precisamos cuidar uns dos outros como irmãos e irmãs.
Mas será que a tal família conservadora segue mesmo os ensinamentos de Cristo? De acordo com o RJ Noticias (02/2026), alguns pastores defendem “Deus, pátria e família” como lata de conserva em gôndola de supermercado. Por dentro, o conteúdo é sempre o mesmo: poder, dinheiro e controle. 

A grande questão é: quando a fé vira produto, quando o púlpito vira palanque, quando a moral só vale para os outros, não é religião, são lojas de  conveniência. O problema nunca foi a fé. O problema é  enlatar e vender, ou usar como escudo de família conservadora patriota.

Você é da família tradicional brasileira, que está usando IA, para se colocar dentro de uma lata de Conserva da Família Conservadora Patriota, achando que fez a leitura correta daquela ala da Acadêmicos de Niterói, cometeu um erro histórico grosseiro. 
Talvez você seja contra a corrupção, paga seus impostos corretamente, faz suas orações e agradece a Deus e é uma pessoa honesta que ensina valores éticos e morais a sua família tradicional, mas não percebeu que pode estar sendo usado e manipulado por políticos e pastores que, estão muito mas para falsos profetas do que para líderes espirituais.

O outro alerta é para pastores que usam o judaísmo e o velho testamento para lhe impor uma teologia ultrapassada e com a qual Jesus, propôs uma nova aliança com Deus, daí o Novo Testamento, que vários pastores estão abandonando.

Então, será que foi a Escola de Samba que colocou os evangélicos na lata de conserva, ou foram alguns pastores, envolvidos em corrupção, lavagem de dinheiro público e transformação das igrejas em comitê político da extrema direita e do Bolsonaro?
Talvez nem percebeu que pode estar em uma bolha bolsonarista, que defende conservadorismo como ideologia f4sc1st4, de uma sociedade colonial, escravagista, patriarcal, controlada por famílias que dominam as terras, os corpos acorrentados pelos os escravagista, as riquezas naturais, os bancos, as indústrias e usam o cristianismo como dogma religioso para dominar as mentes e os espíritos dos que lutam para se libertar desse julgo conservador.

As críticas da Acadêmicos de Niterói possuem fundo histórico, amparadas por acontecimentos reais. Agora, se tiver algum evangélico se sentindo ofendido, não esqueça que pode ter  feito arminha no púlpito e no salão da igreja, e muitos, passaram e ainda passam pano para Bolsonaro, os filhos e a mulher se fazendo de Santa, mas com os cheques das rachadinhas na conta.
Sobre as latas de conservas, objetivamente destacamos duas coisas: as famílias que se dizem conservadoras em nome de Deus, pátria e família, na verdade, conservam o ódio, conservam o preconceito, conservam a xenofobia, conservam racismo, conservam a lgbtfobia, conservam o negacionismo da ciência e conservam os políticos da extrema direita que sempre estão atacando os direitos da classe assalariada. Você cabe em alguma dessas latas?

*Por Belarmino Mariano. Da série homem de pouca fé. Imagens das redes sociais, ilustradas por IA.  Fonte: biblia online. ICL Notícias, DCM, Plantão Brasil, Uol, CNN Brasil e G1.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Resenha do Livro Sobre a História do Treze Futebol Clube, Alvinegro Centenário.

.  Por Belarmino Mariano*

Quase todos sabem que sou flamenguista e simpático do Campinense Clube, em decorrência das aproximações do padrão de cores. Mas isso não vem ao caso, pois o assunto aqui é o nascimento do Treze Futebol Clube, também conhecido como "o Galo da Borborema ou 13 de Campina Grande".

O livro "Éramos apenas 13 - um grupo de amigos que transformou numa nação!" De autoria do professor Mário Vinicius Carneiro Medeiros. João Pessoa, editora ideia, 2025, 86 p. Com uma capa leve e preto no branco, para combinar com as cores alvinegras do Treze Futebol Clube, já nos deixa no mínimo curiosos, pois existe uma mística na numerologia e cabalística em torno do 13. 

Tive o prazer e a felicidade de receber diretamente do autor, professor Mário Vinícius, mais essa brochura linda, com dedicatória e marcador de páginas, delicadamente bem produzido por Magno Nicolau da Editora Ideia.

Em um livro gosto de ler tudo e quero começar a destacar essa capa que parece veludo com impressões de imagens históricas dos fundadores do galo da Borborema e seu centenário escudo de glórias e títulos épicos e ideia de sorte e/ou azar, quando as conquistas acontecem, ou quando, em meio as tormentas, as incertezas e imprevistos do futebol, nos frustramos enquanto fieis torcedores.

A orelha do livro traz uma importante apresentação síntese de Thélio Queiroz Farias. De maneira essencial, já nos desperta para o que vem pela frente, pois a história de um século do clube é um alerta sobre as poucas obras, tratando sobre o futebol brasileiro e paraibano.

O prefácio do livro "Éramos apenas 13", foi escrito pelo talentoso Bráulio Taváres. E aqui não vamos usar a expressão campinense, pois o melhor termo seria "campina grandense". Brincadeiras aparte, Bráulio é de uma sensibilidade literária fenomenal e, nos jogou de imediato, para o mundo dos poderes sobrenaturais e mistérios de um mundo em que o 13 ganha significado e identidade especiais, que só podem ser sentidas por quem é um fiel torcedor.

Ele nos passou a ideia, em que, outros mortais nunca saberão ou provarão dos encantos em ser torcedor do treze. Ou você entra nesse universo maravilhoso como torcedor, ou sua vida sempre ficará faltando alguma coisa. Então, para conhecer essa história, essa mística fantástica, você precisa ler essa obra secular e, para todos os que vestem o "manto alvinegro do 13" e suas insignias cabalísticas, conhecer essa história, fará muito mais sentido em suas vidas.

Bráulio Taváres, como todos sabemos, mergulhou profundamente nessa arte das escrituras sobre o 13 Futebol Clube e suas palavras, despertam o leitor a se apaixonar pelo desconhecido, que está prestes a ser desvelado pelo professor Mário Vinícius e sua obra.

Bráulio começou relembrando de tempos difíceis, de um bom time e bom futebol, mas experiências inglórias, sofrimento e zoações adversárias. Narrativas de algumas décadas perdidas, mesmo assim, existia altivez e humildade para continuar as batalhas e esperanças em dias melhores.

Bráulio alerta a todos os que torcem por algum clube de futebol, para a ideia de que, um dia a gente chora a derrota, mas enquanto isso, aguarda o próximo embate, para na vitória se alegrar, vibrar e crescer as esperanças para o outro dia da semana até o ápice do troféu tão desejado.

Ele traz para o prefácio, os idos de 1975, quando o 13 completou seus 50 anos de existência, memória e história dos 13 primeiros desbravadores que transformaram um sonho em uma nação de galos com essa numerologia para a sorte em torcer pelo 13.

Bráulio Taváres usou a palavra essencial algumas vezes, com isso nos colocou no campo da percepção, fenomenologia e essencialismo e como um artista sensível e emocionado pelo tema que lhe toca profundamente, fez o seu melhor e nos deixou mais instigado a continuar querendo saber o que virá pela frente, pois aqui é apenas o pré-jogo.

Essencial mesmo, pois foi tocado pela história, pela memória e vivências em alegrias e tristezas típicas de qualquer torcedor que ama seu clube, como quem ama seus amigos, seus pais, sua esposa, filhos e netos. 

É importante dizer que ser torcedor é algo que implica, em muitos casos, seus próprios amigos, que às vezes torcem pelo clube adversário (Raposeiros, botafoguenses, etc). Mesmo assim, um se alimenta da alegria ou da tristeza do outro, sempre em um amor tóxico das eternas provocações.

1 século não são 100 dias e para que um século se passe em torno de um fenômeno humano, precisamos reconhecer a importância dos pioneiros e, no livro em tela, eram apenas 13 e assim foi criado o Treze Futebol Clube da Paraíba.

Quando temos um prefácio com essa intensidade, só podemos esperar uma obra significativa e confiante. Registro histórico de um século e muito mais, pois dos primeiros 13, grandes nomes vultos se encontram nos anais do primeiro século do galo da Borborema.

A Título de Introdução, já adorei saber dos três primeiros nomes de fundadores do 13, mas saber que o primeiro gol oficial do galo foi marcado pelo jogador Guiné, em 1926, significa muito, pela simbologia do "Galo e do Guiné", duas aves muito resistentes do sertão nordestino. Sabemos dos limites em termos de comunicações, mas as imagens e o destaque da resenha esportiva da época, são relíquias do passado.

Criado em 7 de setembro de 1925, dia da independência do Brasil, momento comemorativo e que certamente marcou essa escolha histórica. Talvez nem imaginassem que aquele ato chegasse tão longe, fosse despertar a vivência e o coração de tantos alvinegros e sua eterna paixão pelo "Galo da Borborema".

Há um século, Campina Grande, vivia sua expansão de cidade capital da Borborema e do Sertão Paraibano. Um misto de ciclos econômico do colton, pecuária, agave, entroncamento ferroviário e pujante comércio. No Brasil, já existiam centenas de clubes de remo e futebol e Campina Grande, começou a atrair população dos vários municípios da região. 

O futebol começava a despertar interesse como espetáculo e forma de lazer dos finais de semanas e dos torneios comemorativos. Os clubes eram lugares festivos, ambientes para encontros, torcidas alegres, gerando uma identidade de pertencimento e amizades.

Professor Mário Vinicius, nos alertou para os dias atuais e a grande plataforma de dados, documentos, imagens e outras formas de pesquisas facilitadas pela internet. Mas para isso, tivemos os pioneiros, geração após geração, produzindo a história de fato. Hoje existe a facilidade, mas, sem esses pioneiros, nada poderia ser como o que foi indiciariamente produzido.

O autor, ao resgatar essa história, nos permitiu imaginar como foi esse passado e até mesmo em aguçar nossa curiosidade sobre outros aspectos do tema. Os organizadores do 13 de Campina Grande, devem se orgulhar em ter um torcedor dessa magnitude, dedicando e em dias e noites de pesquisas, trazer até nossos dias, livros como o anterior: "Treze Futebol Clube: 80 anos de História".

Agora estamos diante dos 13 pioneiros fundadores dessa história que se mantém firme, forte e viva. Não quero resenhar esse livro em uma ordem de capítulos, pois isso poderia afastar novos leitores da obra completa. 

Portanto, farei comentários pontuais e o primeiro deles é a riqueza de detalhes sobre os primeiros passos de introdução do futebol como conhecemos, a partir de um mundo ainda com forte isolamento informacional. As cidades em crescimento, os meios de transportes e de comunicação se modernizando e experiências humanas como o futebol, despertando o interesse dos jovens e outras faixas e camadas sociais.

A gente começa a imaginar os primeiros passos da cidade de Campina Grande, os clubes sociais e o interesse de "alguns moleques", por algo que ainda não era do conhecimento de todos. Correr atrás de uma bola, inventar regras e transformar as ruas em campinhos de "peladas".

Bióca, certamente é o grande percussor do futebol em Campina Grande. Esse texto intrincado e muito bem referenciado, nos leva para as ruas de terra de uma Campina Grande em expansão. A gente consegue imaginar o delegado furando a primeira bola e proibindo os jovens de "praticar aquela imoralidade no meio da rua", pois deu a entender que estavam jogando com as suas calças de baixo (ceroulas) e sem camisas.

Não quero dar muitas dicas, mas a história é surpreendente, pois entre o nascimento e desenvolvimento do Treze Futebol Clube e as atividades laborais de Bióca, seu amor pelo futebol levou a também fundar o Departamento de Futebol do Campinense Clube. 

Aqui um alerta aos amigos raposeiros da UEPB Rangel Junior, Hipólito e Efigênio Moura. Quem diria que os raposeiros precisariam ler os 13 pioneiros do futebol em Campina Grande, para descobrir suas próprias origens. Será que existe alguma controvérsia, ou terão que aceitar que o "Galo é o pai da Raposa"?

Também quero alertar aos amigos alvinegros da UEPB, Jamerson e Cristiane Nepomuceno, Cláudio Lucena e Luciano Albino, pois essa é a história de vocês também. Fico nessa torcida pois não podem deixar de ler e de indicar para toda a torcida do 13.

Aqui em Guarabira, também tenho amigos como Elias Asfora, que é um apaixonado pelo 13 de Campina e, lendo essas páginas, lembro das nossas conversas sobre o crescimento urbano de Campina Grande, ressaltado no livro sobre os pioneiros do futebol. Assim como o algodão, o gado, os tropeiros e os trilhos de ferro que fizeram florescer a "Rainha da Borborema".

Quando lemos a história dos 13 pioneiros, um a um, o rico acervo fotográfico, as referências bibliográficas cuidadosamente distribuídas, suas origens familiares, esse rebuscado tratado literário e histórico do professor Mário Vinícius, sobre as origens do futebol em Campina Grande e na Paraíba, ficamos muito felizes em saber que não se trata apenas sobre a história do futebol, pois seu detalhamento e linha histórica, veio recheado pelo imaginário e a memória, expondo as origens e expansão da cidade, suas ruas, seu comércio, o esporte e o lazer de tempos pretéritos que agora reunidos neste livro, podem ser revistos dentro de um pretexto, contexto e texto para além do Treze Futebol Clube.

Poderia detalhar cada um dos 13 capítulos, de Bióca a Zacarias Cotó, até o apito final. Mas quero parar por aqui, quero dizer que o livro é inspirador. Mas não é um livro apenas para os apaixonados torcedores do 13. Essa é uma história para o povo de Campina Grande e para a Paraíba.

O livro nos permite conhecer detalhes da história, a partir das décadas de 1925 e nela, percebermos o quanto é fundamental termos uma identidade cultural, territorial e regional, em que, aqueles preconceitos de lugar, como afirma o historiador Durval Muniz em suas obras, e até mesmo, aquelas máximas de torcer por times de fora, por acreditar que na Paraíba não existem times de futebol, podem ser completamente alterados. 

O professor Mário Vinicius quebra esses estereótipos e nos diz que a bola rola em campo, nas arquibancadas e nos espíritos pioneiros. Que o 13 é uma das suas grandes paixões e que nos seus, quase 40 anos de casado, fez essa linda declaração de amor para sua amada esposa Jucicleide Carneiro: "(...) Trinta e nove anos se passaram (...), meu cabelo caiu, aumentei o peso, mudei de profissão (...) Só dois sentimentos não mudaram: o de torcer pelo Treze e meu amor por você!"

Parabéns ao Professor Mário Vinícius pelo livro, aos 100 anos do Treze e ao futebol paraibano. Que as novas gerações possam colocar lenha nessa fogueira e o 13, daqui a mais 100 anos, possa contar a sua história de dois séculos.
 
Por Belarmino Mariano. Da Série Resenhas. Editora ideia, projeto gráfico: Magno Nicolau. Capa: Fred Ozanan. Boa leitura para tod@s.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Do Sujeito de Sorte a Regra de Três Simples.

.  Por Belarmino Mariano*

No Brasil de 1976, em pleno período da Ditadura Militar (1964-1985), estágio ou exercício do Ato Institucional Número 5 (AI-5), em vigor desde 1968, endurecia ainda mais a ditadura. Mesmo assim, o poeta e compositor Belchior Antonio Carlos, entregou para seu público, a composição "sujeito de sorte".

Muitos podem até achar que se trate de uma metáfora simples sobre a morte e até certo ponto é, mas em uma ditadura violenta e sanguinária, que perseguia, prendia, torturava até a morte e depois desaparecia com o corpo, para continuar torturando o psicólogo da família, a Música Popular Brasileira (MPB) não era apenas linguagem metafórica.

Mas vamos à poesia dessa composição, que parece até com uma conversa incidental de barzinho, acompanhada de um velho violão e de um cig4rr0 acesso em plena madrugada, conza e fria, enquanto a cachorra do f4sc1sm0 ladrava madrugada a dentro em pleno cio:

"... Presentemente, eu posso me
considerar um sujeito de sorte
porque apesar de muito moço
me sinto são, e salvo, e forte
… E tenho comigo pensado,
Deus é brasileiro e anda do meu lado e assim já não posso sofrer
no ano passado
… Tenho sangrado demais
tenho chorado pra cachorro
ano passado eu morri
Mas esse ano eu não morro...".

E a composição é basicamente isso, uma simples construção com três estrofes e como em um mantra budista, se repete por 15 vezes. Um recado curto, grosso e poético, certamente para os que achavam que tinham o poder e o direito de matar a sangue frio.

Daí a ideia de relacionar Belchior às operações matemáticas, como a regra de três ora simples, ora composta e também complexa. Não que tenha algo de formação acadêmica com física ou matemática, mas pelo fato de escrever contas poéticas com maestria de quem quer esconder até as coisas mais simples.

A biografia de Belchior (1946-2017), aponta para um cearense com muita erudição nas áreas de filosofia, línguas e artes. Apesar de não ter concluído nem um curso superior, foi aprovado em primeiro lugar para Medicina na UFC, em 1968 e cursou por quatro anos, até 1971, quando abandonou a faculdade de medicina para seguir a vida como poeta, compositor e cantor.

Mas vamos insistir nessa comparação do Belchior com a matemática em tempos de autoritarismo. No mundo da matemática existe a regra de três simples que consiste em uma forma de descobrir um valor a partir de outros três, divididos em pares relacionados cujos valores têm mesma grandeza e unidade. Assim, de cara, confesso que não entendi nada, mesmo assim, seguirei com essa operação.

O sujeito, a sociedade e o estado repressor se encontram nessa operação de vida e/ou morte e, nessa expressão aparece um sujeito sinistro identificado com o Agente (X), que pode ser identificado como aquele que ocupa o lugar de um dos três até que se chegue ao denominador comum e correto. Esse parece ser o X da questão.

Além da regra de três simples, existe também a regra de três composta. "Mas aí já são outros 500". Por enquanto vamos ao sujeito de sorte, no álbum Alucinação (Philips, 1976), já avisando que teve vários trechos censurados pela Dita-Dura.

Assim como as letras na matemática (B+A sobre 2X), para muitos, não faz sentido o cara morrer no ano passado, mas não morrer nesse ano. Em 1976, o Brasil completava 12 anos de chumbo grosso do Regime Autoritário. Belchior, que havia nascido em 1946, estava com 30 anos de idade, tempo considerado como a melhor idade de um homem. Mas aquele tempo perverso conspirava contra suas liberdades plenas.

E o X da questão era observar que seus amigos estavam sendo perseguidos, presos, torturados, desaparecidos ou mortos. Então, para ele, que no ano passado "escapou fedendo", morrer ou não morrer, parecia uma questão de sorte e, em um país profundamente "Cristão", Jesus Cristo só poderia ser brasileiro e parece que assistia tudo de cima do muro.

E como em uma regra de três simples, Belchior repetiu várias vezes, o que podemos considerar como a estrofe central: "… Tenho sangrado demais
tenho chorado pra cachorro,
ano passado eu morri
mas esse ano eu não morro...".

O (AI-5) entrou em vigor em 13 de dezembro de 1968, durante o governo do marechal Artur da Costa e Silva, aprofundando a repressão, fechando o Congresso Nacional e suspendendo as garantias constitucionais como o habeas corpus e a completa ruptura democrática. Com esse ato institucional, os militares estavam acima da lei e da ordem e tinham a sentença até para matar em plena luz do dia.

A regra era simples, duas ou três pessoas reunidas com um violão e cantando canções da América em um barzinho da periferia, poderiam ser considerados como comunistas subversivos, levados a força para alguma delegacia e depois transferidos para um dos porões da Ditadura Militar.

Pesquisas historiográficas sobre música popular brasileira (MPB), dão conta que o álbum Alucinação (Philips, 1976), de Belchior, sofreu várias censuras prévias e cortes em faixas específicas pelos censores da ditadura militar. Em especial nos trechos sobre "desaparecimentos" e "tempos estranhos" foram vetados, forçando Belchior a modificar letras para liberação, como ocorreu na música "Apenas um Rapaz Latino-Americano". 
A própria música "Sujeito de Sorte" parece que foi completamente amputada, pois o estilo poético de Belchior era de grandes composições, profundamente detalhadas, com letras rebuscadas ao exemplo da 
composição: "Velha Roupa Colorida" (1976), em que uma canção aparente simples e indetectável pela censura, consegue trazer para a realidade brasileira, uma operação metafórica e filosófica de um diálogo entre (Blackbird - O Corvo), do poeta Norte-Americano Allan Poe, em que, Belchior cria um diálogo literário com Luiz Gonzaga (Assum Preto) e sua condição degradante de prisioneiro que teve os olhos furados pelo seu criador.

"O Assum Preto", de Luiz Gonzaga, símbolo do sertão, preso na gaiola e com os olhos furados, a cegueira representa a realidade crua e a dor, a metáfora de sofrimento e perseguição que cantores e compositores passavam com a ditadura militar.

Daí a ideia central em ser obrigado a escrever composições com mensagens subliminares, confundindo os censores e obrigando o público a interpretação matemática da letra. O poeta e compositor era obrigado a arriscar a própria vida ao driblar a censura, se colocando na posição de o X daquela difícil operação, aparentemente simples, porém composta de agentes militares fortemente armados e prontos para atacar.

Como um compositor sensível, complexo, profundo, filosófico e crítico da realidade, certamente sofreu muito durante a ditadura militar, assim como muitos outros, ao exemplo do paraibano Geraldo Vandré que, três anos depois (1979), foi durante perseguido, preso, censurado e torturado pelo regime autoritário brasileiro, simplesmente por escrever "pra não dizer que não falei das flores", que ao longo dos anos "cinzas", se tornou o hino contra a repressão do regime militar.

Em 2026, estamos há dois anos dos 60 anos do AI-5. Enquanto isso, jovens e outros populares brasileiros continuam com dificuldade em matemática e vivem escutando muita música porcaria. Esse é o X da questão. Idiotizados pela grande mídia e Internet, se acham fodásticos do pedaço. Enquanto isso, golpistas, ditadores, n4z1s e corruptos continuam em diferentes esferas do poder, com apoio da grande mídia e livre acesso na internet, ameaçando nossa democracia e a soberania nacional em conluio com outros ditadores genocidas.

*Por Belarmino Mariano. Da Série Antes Que Seja Demais. Imagens das redes sociais.
Fonte: letras de Belchior. Canal Musicália (YouTube, 09/12/2016).

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Homens de Pouca Fé - Machado de Assis, Chico César e Zeca Baleiro entre Deus & o Diabo.

.  Por Belarmino Mariano*

As vezes, autores do final do século XIX e início do século XX, influenciaram gerações por décadas e séculos. Acredito que Machado de Assis tenha sido um deles, pois deixou um dos maiores legados da literatura brasileira.

Aqui a ideia é trazer dois parceiros da Nova MPB, Chico César e Zeca Baleiro, para analisar se foram influenciados por Machado de Assis, usando como exemplos o conto "a Igreja do diabo"(Machado); a composição de Chico, "Perto demais de Deus" e a de Baleiro "Heavy Metal do Senhor"

A Igreja do Diabo é um conto escrito por Machado de Assis, em 1883, para o Jornal A Gazeta de Notícias. Na obra, o diabo resolveu fundar a sua própria igreja e utilizou a linguagem da lógica racional e coerência argumentativa para convencer os fiéis de que, seus vícios, crimes e pecados são partes da natureza humana e devem ser compreendidas enquanto virtudes a serem seguidas.

Os sete pecados capitais estão diretamente relacionados aos comportamentos humanos, todos justificados pelas atitudes e comportamentos sociais. A moralidade e a imoralidade estão no cerne das questões machadianas sobre os vícios e pecados humanos.

A Igreja do Diabo está dentro de cada prática da religião, pois não importa se é o pecado da: cobiça, gula, inveja, ira, luxúria, soberba ou traição aos pais. De alguma maneira, você estará fadado a cometer qualquer um ou mais de um desses pecados em diferentes momentos de sua vida.

Nos irônicos argumentos de Macho de Assis, o diabo com sua linguagem rebuscada convence os fiéis que os pecados, na verdade, são virtudes que estão na natureza humana e com as quais devemos lidar com tranquilidade. Mas em algum momento, a ilusão e falseamento da realidade poderá ser percebida e a doutrinação diabólica poderá cair por terra.

Parece até que Machado estava escrevendo para hoje, pois estamos diante de narrativas e de pastores cristãos que cometem todos os pecados capitais de maneira turbinada, assim como levam seus fiéis às mesmas práticas. Na atualidade, as teologias, da prosperidade e/ou do poder político, com o envolvimento de igrejas em corrupção, desvio de dinheiro público, exploração política, econômica e espiritual dos fiéis, dão o tom de muitas congregações religiosas.

Na letra da música "Perto demais de Deus", o cantor e compositor Chico César, faz alertas semelhantes aos de Machado de Assis, bem realista e com fortes argumentos que não são apenas retóricos. A ideia central é de que, "essa gente é o diabo e faz da vida de Deus um inferno". 

Chico não faz o papel diabólico de convencer as pessoas sobre seus pecados, enquanto virtudes, mas sobre um Deus que vive sufocado diante de fiéis completamente mergulhados em pecados e perturbando Deus em todos os momentos.

Chico, diferente de Machado, apenas observa que: 
"Tem gente perto demais de Deus; Tem gente que não deixa Deus sozinho; e diz Deus ilumine seu caminho(...).
E guarda Deus na cristaleira;
Cristo perto dos cristais;
Cristo assim perto demais
Cristo já é um de nós
Carne e osso pão e vinho" (...)

Os fiéis e religiosos, estão constantemente voltados para os exageros religiosos, onde Deus virou um misto de imagem, representação e constantemente, uma espécie de empregado dos caprichos, desejos e necessidades humanas.

Chico César está convencido que: "Tem gente que não deixa Deus em paz; Tem gente incapaz de viver sem Deus;
E o trata como um funcionário seu; Deus me livre, Deus me guarde, Deus me faça a feira
Cristo dentro da carteira
Dez por cento rei dos reis
Cristo um conto de réis
O garçom não a videira
Essa gente é o diabo
E faz da vida de Deus um inferno (repete três vezes e repete os estrofes anteriores)".

No conto de Machado de Assis, o Diabo organiza sua própria igreja e com dogma e doutrinação, tenta convencer os fiéis de que, o que a Igreja do Senhor considera pecado capital, ele ensina como virtude a ser seguida e praticada sem medo, dó ou piedade. Na Igreja do Diabo "é proibido proibir", em um misto de pesnse, sinta e faça o que der vontade ou vier na cabeça.

Na composição "Heavy Metal Do Senhor" (Zeca Baleiro), afirma que: "O cara mais underground que eu conheço é o Diabo
Que no inferno toca cover das canções celestiais
Com sua banda formada só por anjos decaídos
A platéia pega fogo quando rolam os festivais (...)

É uma composição musical ao estilo rick mental pesado, mas a letra é conto perfeito, poesia irônica e crônica das diferentes imagens que temos sobre as ideias de Deus, Diabo e pecado original. "Sexo, Droga e Rock and roll". Não se trata de um rock ou banda satanista, como alguém poderia pensar, mas a ideia é humor, sarcasmo e ironia, diante de figuras que condenam comportamentos ou padrões estéticos em relação ao gosto musical de cada um. 

Inclusive, existem discursos de ódio pregados em púlpitos e altares, contra os velhos ateus, afirmações de que ateus são satanistas, adoradores do diabo e a ideia de rock como música do satanás.

Mas, nas últimas décadas, os cantos dominicais, os corais de jovens vestidos de anjos celestiais, estão perdendo espaço para bandas golpel que tocam rock pesado, durante as missas e cultos evangélicos. 

Também é uma observação de experiências religiosas para atrair jovens para os púlpitos e palcos de fé. Em algumas denominações neopentecostais, observamos bandas musicais tocando músicas ou hinos religiosos aos estilos do rock, forró, sertanejo etc. O que era considerado mundano, imundo e infernal, passou a servir de chamariz religioso.

Na segunda parte de música Baleiro, aponta um paradoxo entre Deus e o Diabo ao afirmar que: "Enquanto isso Deus brinca de gangorra no playground do céu com santos que já foram homens de pecado
De repente os santos falam: Toca, Deus, um som maneiro
E Deus fala: Aguenta, vou rolar um som pesado
A banda cover do Diabo acho que já tá por fora
O mercado tá de olho é no som que Deus criou
Com trombetas distorcidas e harpas envenenadas
Mundo inteiro vai pirar com o heavy metal do Senhor" (...).

Durante séculos a igreja queimou pessoas na fogueira por identificar que estava em pecado. Mulheres eram queimadas vivas, pois eram vistas como bruxas, feiticeiras ou enviadas pelo diabo para atentar o homem. Cientistas iam para a fogueira, simplesmente por descobertas científicas que contrárias as doutrinas e aos dogmas religiosos.

No século XX, estilos musicais como o "Rock and roll ou heavy metal" eram considerados "coisas do diabo", pecado que era condenado por padres e pastores cristãos. Mas, em algum momento, "as trombetas distorcidas e harpas envenenadas", começaram a fazer parte da literatura musical e da liturgia em algumas denominações protestantes e católicas.

Então, se o Rock and roll ou heavy metal eram músicas de protesto do pós segunda guerra mundial (1939-1945), ganhando espaço na discografia e festivais a partir das décadas de 1950-1990, no século XXI, entraram nas igrejas neopentecostais pela porta da frente, atraindo jovens e originando o estilo rock gospel.

Outro fenômeno religioso, mais recente é o uso de linguagem diabólica dentro dos templos evangélicos, em que, pastores, comandam shows músicas, além de invenções em que, pessoas contratadas encenam que estão incorporadas pelo diabo e esse maligno, geralmente fala diretamente do púlpito e no microfone da igreja, são transmitidos ao vivo e a cores, usando línguas estranhas e fazendo ameaças aos fiéis que não estejam cumprindo os mandamentos e não depositem as oferendas e dízimo.

Hoje em dia se fala em "shopping da fé", onde tudo é por dinheiro, prosperidade e poder, inclusive com muitos religiosos se transformando em políticos, formando poderosas bancadas parlamentares evangélicas e ocupando cargos de poder em diferentes esferas. Pastores e bispos são donos de partidos políticos e dentro das igrejas, parece que ocorrem verdadeiras lavagens cerebrais em prol da extrema direita.

Na atualidade é comum vermos movimentos políticos, com pastores induzindo fiéis a fazerem armas dentro das igrejas, estimulando o ódio, com as bíblias em punho e pedindo intervenção militar, com a volta da ditadura e perseguição ao estado laico e democrático.

Nestes dias, vi evangélicos com bandeiras dos Estados Unidos e de Israel, os dois países que mais alimentam guerras e genocídios contra a humanidade. Isso mesmo, protestantes apoiando o sionismo, parece uma disfunção cognitiva, pois na própria bíblia fixa claro que a crucificação de Jesus foi uma exigência dos religiosos judeus e que até hoje consideram Jesus Cristo um impostor e falsário.

Quem é o diabo, diante de pastores que organizam bancos digitais, ao exemplo do Banco Máster do Pastor Daniel Vorcaro e/ou o Clava Forte Bank (fintech) do pastor André Valadão, da igreja da Lagoinha. Essas instituições financeiras, comandadas por pastores, estão envolvidas no maior escândalo de fraude financeira do Brasil, inclusive roubando dinheiro de aposentados pelo INSS.

Mas eles não estão sós, inclusive, contam com a participação de dezenas de políticos da extrema direita e da bancada evangélica, com líderes de partidos do centrão, prefeitos, governadores, deputados federais e senadores da direita e extrema direita, então fica a questão: Machado foi assertivo ao escrever um conto sobre a ideia de uma igreja do diabo e se sim, será que influenciou o Chio e o Baleiro em suas composições sobre o tema?

*Por Belarmino Mariano - Série Velho Ateu. Imagens das redes sociais.
Fonte: Musixmatch; Aventuras da História e Zeca Baleiro Letras.

1572 - Massacre da Noite de São Bartolomeu

.  Por Edvaldo Carlos de Lima*

Você ja ouviu falar no Massacre da Noite de São Bartolomeu. Em 24 de agosto de 1572, os católicos franceses que enfatizavam as boas ações do cristianismo, atacaram comunidades de compatriotas protestantes, que ressaltavam o amor de Deus pela humanidade.

Nesse ataque foram assassinados entre 5 mil e 10 mil protestantes em menos de 24 horas. Quando o papa em Roma ouviu as noticias vindas da França, ficou tão contente que organizou orações festivas afim de comemorar a ocasião e contratou Giorgio Vasari para decorar um dos aposentos do Vaticano com um mural que retratasse o massacre (o aposento atualmente está fechado à visitação pública).

Mais cristãos foram mortos por outros cristão naquelas 24 horas do que pelo Império Romano politeísta em toda a sua existência. Para mais informações sobre a violência do Cristianismo, leia Yuval Noah Harari, 2020). Um abraço a todos e todas.

*Edvaldo Carlos de Lima (Sério o Velho Ateu). Prof. PhD de Geografia Agrária pela UEPB, Campus I.
Fonte: https://www.facebook.com/share/p/1Ddn7UfJ2d/

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

"AI politics and fake news in Brazil. IA, política e fake news no Brasil".

.   Por Belarmino Mariano*

Aqui não é nada contra a Inteligência Artificial (IA), mas será que você está preparado para uma tempestade de fake news em 2026? Com o crescimento e uso da IA na internet, o Brasil já se tornou um verdadeiro líder mundial e olha que o controle das IA's é totalmente imperialista.

As redes sociais, portais, big tech, internet, intranet e hacker são territórios sem lei e com grande movimento de capital livre de impostos e operado por criptomoedas, ouro e outros patrimônios fácil fluxo. "A sua ideologia é o caos, pois assim se ganha mais dinheiro.

As Fake News (notícias falsas) serão e já são tão violentas, que a verdade terá dificuldade de se estabelecer, de ser encontrada e talvez nem exista mais como pensávamos. Fakes com: "Banheiro unissex nas escolas e universidades"; "mamadeira de p1r0ca" ou "morte de Lula, com sósias ocupando o Palácio do Planalto", serão fichinha, parecerão piadas de mau gosto, diante das novas fakes que já estão abalando bolsas de valores, blocos econômicos e noticiários em telejornais ou telemarketing para derrubar governos ou marcas globais, enquanto facções criminosas luceam fácil.

Basta observar os bilhões de acessos e desdobramentos da fake do Deputado de extrema direita Nikolas Ferreira do PL em  janeiro de 2025,  sobre o fim e/ou a taxação do Pix. Essa mesma fake abalou a política econômica do governo Lula e beneficiou fintechs, organizações criminosas e governos estaduais ligados ao esquema.

Agora em janeiro de 2026, novamente, voltou a ser reeditada, com o escândalo do Banco Master e a CPMI do INSS que chegou aos super Pastores e a vinculação com o Banco Master, políticos da extrema direita, pastores, fintch clava forte, pastor André Valadão, Banco Master, Nikolas e os líderes de partidos da extrema direita.

Páginas de fora do Brasil, alimentadas com força máxima, já estão trabalhando em uma "guerra de destruição de reputação e imagem", serão repercutidas por mídias e redes sociais internas em uma repetição permanente que não teremos como combater.

As grandes redes, plataformas e portais, pagarão por curtidas, links, conteúdos compartilhamentos da extrema direita. Enquanto isso, essas mesmas redes ganham por impulsionamentos dos produtores e propagadores de fake news. Uma troca perfeita 

Não foi atoa que o Congresso Golpista e Inimigo do Povo, fez um gigantesco lobby contra a regulação das redes sociais. Na atualidade, enquanto as big techs controlam, fream, bloqueiam influenciadores e portais de esquerda, os extremistas de direita seguem livres, keves e soltos postando as fake news mais estapafúrdias da atualidade.

Não sei vocês, mas em todos os dias, recebo sugestões de páginas, contatos e materiais de extrema direita, políticos e influências que atacam a imagem do presidente Lula e com informações fake contra ideologia de esquerda e é proposital e de manipulação constante.

O mais grave é a dissimulação, ou narrativas que parecem análises políticas sérias, com base em fatos reais, mas completamente distorcidas. Essas vão desde fatos históricos, análises de economia, política e até mesmo situações familiares com discussão de ética, moral e conservadorismo.

As big techs, através da IA, dominam tudo e estão 24 horas por dia, todos os dias, programadas para fazer esse trabalho sujo. Hoje recebi a sugestão de um vídeo, aparentemente sobre a história de Hitler e Mussolini, dando informações históricas, mas ideologicamente, lhes colocando como líderes que tinham o propósito de recuperação do mundo corrompido pelo comunismo ateísta.

Páginas de políticos e apoiadores de extrema direita, com narrativas fakes são insistentemente sugeridas e mesmo que a gente denuncie e bloquei, elas voltam insistentemente. Enquanto isso, os nossos artigos e críticas são bloqueados até mesmo entre familiares e amigos. Estamos sendo isolados neste mar de merd4 e lama do "excremento direita".

As esquerdas brasileiras, o governo Lula precisam de estratégias seguras, pois a extrema direita não está de brincadeira. São ideologicamente nazif4sc1stas e farão de tudo para instalar o caos mundial e o Brasil é o maior alvo do Sul Global. Eles controlam tudo e na medida em que perdem espaços de poder, irão usar todas as suas armas para transformar qualquer democracia ou ordem coerente.

Por Belarmino Mariano. Série Pavio Curto. Imagens das redes sociais. Fonte: Brasil 247, Brasil de Fato, G1, CNN Brasil, BBC Brasil, Plantão Brasil, DCM.

domingo, 25 de janeiro de 2026

Reflexão sobre a Humanidade

A verdadeira humildade é... dar o melhor de si, sem se sentir melhor que os outros.
É ter consciência de suas qualidades, mas reconhecer que tem muitos defeitos também.
Mostrar seus talentos, sem querer abafar os talentos dos outros.
Dar sua opinião com a mesma disposição de ouvir a opinião dos outros.
Saber reconhecer que os outros podem estar certos.
É você admirar os outros pelo que eles fazem, sem esquecer que você também é capaz de fazer coisas maravilhosas.
Aceitar cargos importantes, mas fazer deles uma maneira de servir ainda mais...
Ajudar a quem precisa sem pensar em agradecimentos.
Aceitar a vontade de Deus, sem abrir mão da sua responsabilidade de tomar decisões e fazer a sua parte.
Ser capaz de aprender com os outros, sem perder sua identidade própria.
Aprender a conviver com todas as diferenças.
Saber viver na simplicidade sem sentir-se superior àqueles que são apegados às coisas.
Olhar para frente e seguir adiante, sem esquecer quem está do seu lado.
Oferecer aos outros o que você tem de melhor, sem impor-se a ninguém.
Escalar as alturas, sem pisar em ninguém.
Não depender de elogios nem recompensas para fazer o que é certo.
Saber que a santidade só faz sentido nas convivências com as pessoas.
A verdadeira humidade é você ser com uma flor, frágil e efêmera, que desabrocha beleza e exala perfume para todos os lados.
É no momento certo, saber virar as costas para o que não lhe diz respeito.
(desconheço autoria) - Via Vânia de Farias Castro 

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Fixos e Fluxos de uma Curta Experiência em Existir

Por Belarmino Mariano*

Hoje acordei cedo, mas os pássaros já estavam cantarolando nas árvores do quintal. Em um ritual matutino fui até o banheiro e, ao expelir significativa quantidade de líquido da uretra, senti um alívio da pressão dos líquidos e sais minerais consumidos e processados na noite anterior.

Sou de 20 de janeiro de 1964. Poderia ter sido batizado como Sebastião Belarmino, mas minha mãe tinha pena de São Sebastião e suas flechas romanas transpassadas ao corpo amarrado em um tronco. A crueldade humana e sua estupidez religiosa que deu para Tião o mesmo tipo azar de Jesus Cristo e pelas mãos dos seus patrícios.

Hoje, 21 de janeiro de 2026 (DC), o primeiro dia de aulas do nono ano escolar da minha caçula Luisa Gomes. Ela me acordou bem cedo, com a sua ansiedade adolescente, enquanto eu, ancião, tentei despertar para as obrigações de um pai quase avô.

Ao acordar do curto espaço, tempo de sono, lavei bem o rosto com a água fria, vinda da torneira. Nesse ritual gostei de sentir bem a caveira dentro de mim. Ao encher as mãos com o líquido sagrado que escorre por entre os dedos e se sente ao contato da pele, os ossos cranianos por entre a maçã do rosto e as bordas dos olhos.

Esse banho facial de água fria e fluida, me ajudou a despertar e a sentir que ainda estou aqui. Pelo menos a sensação de caveira a fixar a minha existência ao mundo. 

Tinha ido dormir depois da meia noite, portanto já era dia, em meio ao fluxo das horas e do próprio conceito de tempo que nunca me convenceu de sua existência há nos reinar como um Deus faminto e sedento.

No ciclo dos meus dias e noites, há dois anos entrei na série histórica 1964 até 6.0 e ontem completei 6.2, uma idade em que, o peso dos dias são declaradamente sentidos, mesmo que alguns considerem como força gravitacional puxando tudo para baixo, tirem o docinho do cardápio que o velho chegou.

Pensei em ainda estar vivo, pulsante e me preparando para mais um dia e uma noite, em um ciclo pulsante da existência. Um café forte e moído na hora, acompanhado por um prato de inhame com queijo de coalho e manteiga da terra. Uma fatia de bolo de massa de mandioca sem açúcar foi meu desjejum. 

Não sei por quais cargas d'águas, lembrei do escritor Franz Kafka, especialmente de forma literária e até mesmo filosófica, quando cunhou a frase: "Só há um ponto fixo. É a nossa própria insuficiência. É daí que é preciso partir". Lembrei que as repugnantes baratas voam, enquanto eu penso que sei voar. 

Não dá para saber o que Kafka estava querendo dizer exatamente, pois essa frase é parte de rascunhos e anotações de suas metamorfoses literárias. Entre seus rascunhos de pensamentos, outras ideias e sentimentos transcritos apontam para a busca da sua existência ou até mesmo de de uma consciência ou percepção essencial muito mais fluxos do fixos.

Não sei se buscava algum teorema matemático ou uma molécula imutável para a vida, capaz de nos colocar no mundo como se estivéssemos em uma Roda de Samsara, como previa os Vedas em seus escritos sânscritos, que chegaram até o budismo.

Talvez sejamos pontos matemáticos em um contínuo quântico, como afirma Brouwer em seu teorema: "sempre continuará a existir uma molécula, flutuando na superfície de um café mexido".

Pensei se tinha medo. Medo eu? Medo medo de quê? Medo até de sentir medo. Medo de culpa, medo de obediência cega, de gafanhotos e devoradores de templo da minha existência e medo do Deus Cronos a me devorar com sua boca de caos eterno.

Medo da barata de Kafka, mais medo ainda da repugnância voadora da barata voando na minha direção e do seu pouso catastrófico em meu braço. Que nojo e tudo era apenas pensamento maluco de está vivo e ter entrado na série sexagenária de minha rápida existência, sem saber ao certo como cheguei até aqui.

De uma coisa eu sei: "Só há um ponto fixo. É a nossa própria insuficiência. É daí que é preciso partir" (Franz Kafka), foi epígrafe do meu livro primogênito "Ecologia e Imaginário" sobre as ideias de natureza dos velhos e velhas, dos Cariris velhos da Paraíba.

*Por Belarmino Mariano. Da série no Cabo da Boa Esperança. Imagem das redes sociais.

Parece um Deus, mais como os Deuses, o Tempo não Existe.


Por Belarmino Mariano*

Aqui, diante de vazios paradoxais, enigmas filosóficos puros e mente primitiva, começo com um mantra oriental do budismo tibetano: "O que existe onde nada existe"?

O tempo nunca foi uma ciência exata, é apenas uma ilusão circunstancial de observação dos fenômenos cíclicos e repetitivos.

O tempo é uma ideia de longa repetição duradoura que se fragmenta em diferentes razões de coisas que não existem de fato.

Primeiro, começamos a observar a sequência de dias e de noites. De claro e de escuro, luz e sombras, em pingos distantes de luz que se movimentam ou estão parados. As aparências fascinantes dos fluxos e dos fixos.

Da Terra para o céu solar e do céu para a lua e outros pingos de luz, organizamos nossos mapas mentais de distâncias e de lonjuras. Assim, começamos a observar os outros animais e seus ciclos ou rotas migratórias. 

Ganhamos distâncias e sempre perguntamos, o que existe depois daquela montanha, depois daquele rio, depois daquele deserto, depois daquela floresta, do outro lado daquele mar ou oceano? 

Esse pergunta repetida milhões de vezes, geração após geração, vive latente em tidas as mentes. Como se fizesse parte do nosso consciente coletivo. Nos labirintos das nossas ideias e fluxos de pensamentos criamos uma incrível máquina que idealiza o tempo como se de fato existisse.

Imagine que ao voltarmos para a observação da noite, para a escuridão de onde estávamos, quando passamos a controlar o fogo, controlando a escuridão existencial, diminuindo a sensação do frio e aplacando o medo e os traumas das feras carnívoras. 

Imagino as noites calmas e ballet perfeito da lua, um farolete celestial, sempre nos guiando, enquanto ela é repartida em pedaços crescentes e decrescentes. Aí uma matemática primitiva da repartição da ideia de tempo. E na lua nova, a ausência de luz, enquanto o céu maior, se pintava de missangas brilhosas.

Quem controla tudo isso? Como faz e o que estamos fazendo aqui, enquanto observamos esses acontecimentos. Do medo de tudo, para o fascinante, complexo e inexplicável. Mesmo morrendo de medo de quase tudo, nos aventuramos em pensar e em dizer, bem como anotar. Então criamos nossa maior e primitiva ideia de tempo.

*Por Belarmino Mariano. Imagem do autor. Itaquatiara de Ingá/PB.