domingo, 18 de janeiro de 2026

A Vertigem dos Que Sabem Demais Para Dormir em Paz (Crônica filosófica).

.  Por Alessandra Del'Agnese* 

Há um momento, no meio da madrugada, em que o pensamento vira um animal de estimação indomável. Ele late dentro do crânio, pede comida, rasga o sofá da alma. E aí vem o suspiro primordial, aquele que atravessa séculos e chega até nós, úmido de cansaço: “às vezes eu gostaria de não pensar”. Não é o lamento do preguiçoso, do vazio. É o grito afogado do náufrago que nadou demais e, ao avistar novos continentes, percebeu que o oceano é infinito.

Sócrates, esse velho mau-caráter encantador, nos pregou a peça final. Nos fez acreditar que saber que nada sabemos é o ápice da sabedoria. Mas ele não contou o preço psicológico dessa descoberta. É um cansaço que nasce não da ignorância, mas do excesso de janelas abertas. Cada livro lido, cada insight, cada fenda de compreensão sobre o humano não acrescenta um tijolo de certeza; abre um abismo novo. O conhecimento, quando honesto, não é cumulativo. É destrutivo. Ele derruba as paredes da sua casa mental e, no lugar, instala um horizonte infinito e um vento gelado.

Somos os bichos paradoxais que buscam a lucidez e depois enlouquecem com ela. Pensar demais é uma vertigem. É subir ao último andar do arranha-céu da consciência, olhar para a cidade das ideias, e sentir um impulso animalesco de pular ou de voltar correndo para o térreo, para o abraço quente e burro da inconsciência. Quanto mais você amplia o horizonte, mais o chão some. A realidade fica lá embaixo, pequena, e você, suspenso no ar do seu próprio raciocínio, sente náusea.

Os místicos sabiam disso. Chamavam de “noite escura da alma”. Não é a noite do ignorante, que nunca viu a luz. É a noite daquele que viu tanta luz que ficou cego. A psicanálise, em seu berço esquisito, diria que é o ego esgotado de servir de mediador entre o id (o porão dos instintos) e o superego (o andar penthouse da moral), entre o que se sente e o que se “deveria” ser. É a fadiga do intermediário, do eterno tradutor entre línguas desconhecidas.

E o que fazemos? Nos refugiamos no supermercado da vida cotidiana. Decidir entre iogurte grego ou natural vira um alívio filosófico. É uma decisão finita, com consequências digestivas mínimas. O trivial vira bálsamo. A rotina, uma oração. Porque pensar sobre o iogurte não abre abismos. Só abre a geladeira.

Mas esse desejo de “não pensar” atenção! não é uma vontade de emburrecimento. É um pedido de licença. De um intervalo. Como o pianista que, depois de horas de Bach, precisa esticar as mãos e ficar em silêncio. O silêncio aqui não é vazio; é o campo fértil onde a digestão do mundo acontece. Às vezes, parar de pensar é o ato mais inteligente do pensador. É permitir que o inconsciente esse sábio analfabeto trabalhe com o material acumulado.

No fim, a grande ironia é esta: a única coisa que sabemos com certeza absoluta é que não sabemos. E essa é a descoberta que tanto aterroriza quanto liberta. Aterroriza porque tira o chão. Liberta porque tira as amarras. Você pode, finalmente, parar de fingir que tem as respostas. Pode sentar na varanda do seu próprio mistério, tomar um café, e olhar para o mundo sem a obrigação de decifrá-lo.

O descanso do pensador, portanto, não é a morte da mente. É o seu abraço mais profundo com o mistério. É dizer, com um sorriso cansado e sábio: “Hoje, eu dispenso Sócrates. Hoje, eu só quero o sabor do café e o voo do passarinho, sem interpretar nada.” E nesse instante, talvez, sem querer, você esteja pensando da forma mais profunda p pensando com a alma, não com o cérebro. Que é, no fim das contas, o único pensamento que realmente importa.

*Alessandra Del'Agnese @destacar

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