Hoje acordei cedo, mas os pássaros já estavam cantarolando nas árvores do quintal. Em um ritual matutino fui até o banheiro e, ao expelir significativa quantidade de líquido da uretra, senti um alívio da pressão dos líquidos e sais minerais consumidos e processados na noite anterior.
Sou de 20 de janeiro de 1964. Poderia ter sido batizado como Sebastião Belarmino, mas minha mãe tinha pena de São Sebastião e suas flechas romanas transpassadas ao corpo amarrado em um tronco. A crueldade humana e sua estupidez religiosa que deu para Tião o mesmo tipo azar de Jesus Cristo e pelas mãos dos seus patrícios.
Hoje, 21 de janeiro de 2026 (DC), o primeiro dia de aulas do nono ano escolar da minha caçula Luisa Gomes. Ela me acordou bem cedo, com a sua ansiedade adolescente, enquanto eu, ancião, tentei despertar para as obrigações de um pai quase avô.
Ao acordar do curto espaço, tempo de sono, lavei bem o rosto com a água fria, vinda da torneira. Nesse ritual gostei de sentir bem a caveira dentro de mim. Ao encher as mãos com o líquido sagrado que escorre por entre os dedos e se sente ao contato da pele, os ossos cranianos por entre a maçã do rosto e as bordas dos olhos.
Esse banho facial de água fria e fluida, me ajudou a despertar e a sentir que ainda estou aqui. Pelo menos a sensação de caveira a fixar a minha existência ao mundo.
Tinha ido dormir depois da meia noite, portanto já era dia, em meio ao fluxo das horas e do próprio conceito de tempo que nunca me convenceu de sua existência há nos reinar como um Deus faminto e sedento.
No ciclo dos meus dias e noites, há dois anos entrei na série histórica 1964 até 6.0 e ontem completei 6.2, uma idade em que, o peso dos dias são declaradamente sentidos, mesmo que alguns considerem como força gravitacional puxando tudo para baixo, tirem o docinho do cardápio que o velho chegou.
Pensei em ainda estar vivo, pulsante e me preparando para mais um dia e uma noite, em um ciclo pulsante da existência. Um café forte e moído na hora, acompanhado por um prato de inhame com queijo de coalho e manteiga da terra. Uma fatia de bolo de massa de mandioca sem açúcar foi meu desjejum.
Não sei por quais cargas d'águas, lembrei do escritor Franz Kafka, especialmente de forma literária e até mesmo filosófica, quando cunhou a frase: "Só há um ponto fixo. É a nossa própria insuficiência. É daí que é preciso partir". Lembrei que as repugnantes baratas voam, enquanto eu penso que sei voar.
Não dá para saber o que Kafka estava querendo dizer exatamente, pois essa frase é parte de rascunhos e anotações de suas metamorfoses literárias. Entre seus rascunhos de pensamentos, outras ideias e sentimentos transcritos apontam para a busca da sua existência ou até mesmo de de uma consciência ou percepção essencial muito mais fluxos do fixos.
Não sei se buscava algum teorema matemático ou uma molécula imutável para a vida, capaz de nos colocar no mundo como se estivéssemos em uma Roda de Samsara, como previa os Vedas em seus escritos sânscritos, que chegaram até o budismo.
Talvez sejamos pontos matemáticos em um contínuo quântico, como afirma Brouwer em seu teorema: "sempre continuará a existir uma molécula, flutuando na superfície de um café mexido".
Pensei se tinha medo. Medo eu? Medo medo de quê? Medo até de sentir medo. Medo de culpa, medo de obediência cega, de gafanhotos e devoradores de templo da minha existência e medo do Deus Cronos a me devorar com sua boca de caos eterno.
Medo da barata de Kafka, mais medo ainda da repugnância voadora da barata voando na minha direção e do seu pouso catastrófico em meu braço. Que nojo e tudo era apenas pensamento maluco de está vivo e ter entrado na série sexagenária de minha rápida existência, sem saber ao certo como cheguei até aqui.
De uma coisa eu sei: "Só há um ponto fixo. É a nossa própria insuficiência. É daí que é preciso partir" (Franz Kafka), foi epígrafe do meu livro primogênito "Ecologia e Imaginário" sobre as ideias de natureza dos velhos e velhas, dos Cariris velhos da Paraíba.
*Por Belarmino Mariano. Da série no Cabo da Boa Esperança. Imagem das redes sociais.
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