quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

O ORGULHO FERIDO DA PÁTRIA BOLIVARIANA

Por Maria Luiza Alencar Feitosa*

O ataque de Trump matou quase toda a guarda bolivariana de Maduro. Cerca de 40 soldados e soldadas mortos a tiro e a sangue frio. Maduro não foi traído por sua escolta e olhe que a oferta de traição valia 50 milhões de dólares.

Sequestrado o presidente (e sua esposa?), assumiu o governo a vice de Maduro, que não se dobrou e determinou até a expulsão consular da delegação da França do país depois das declarações de Macron. 
Trump concedeu o prazo de 30 dias para ela aderir ao golpe e passar a entregar as reservas de petróleo aos EUA. Só isso importa ao invasor.

Aí me lembrei do nosso filme Bacurau e comparei o orgulho do povo de Bacurau com o ufanismo da patria bolivariana. Veio à minha mente a figura imponente de Simón Bolívar. A Venezuela bem que podia ser o novo Vietnam (menção à guerra perdida pelos norte-americanos nos anos setenta, mesmo com todo o poderio militar estadunidense, ante a vitória do Vietnã do Norte, seguida da reunificação do país sob um governo socialista).

O orgulho do povo venezuelano por ser a pátria bolivariana é um elemento histórico, cultural e político profundo, que ajuda a compreender tanto a resistência simbólica do país quanto a centralidade da soberania no imaginário nacional.
Simón Bolívar não é apenas um herói nacional: ele é o fundador da ideia de emancipação latino-americana como projeto continental. 

Para os venezuelanos, Bolívar representa a recusa da tutela externa, a luta contra o colonialismo e a afirmação de que a América Latina deveria pensar-se a partir de si mesma, e não como prolongamento da Europa ou dos Estados Unidos. Esse legado produziu uma identidade nacional fortemente associada à dignidade, à autodeterminação e ao anti-imperialismo.

Diferentemente de outros países onde os heróis da independência foram progressivamente esvaziados ou folclorizados, na Venezuela, Bolívar permanece um referencial vivo, presente na educação, na cultura cívica e no discurso político, inclusive como fonte de orgulho popular. Isso não significa adesão automática a governos específicos, mas a permanência de uma memória histórica segundo a qual a submissão externa é percebida como traição ao próprio sentido da nação.

Para muitos venezuelanos, discordar de Maduro não implicava aceitar a perda de soberania ou a transformação do país em protetorado. A figura de Bolívar funciona, nesse sentido, como limite simbólico: até onde vai a crítica interna e a partir de onde começa a dominação externa.

O bolivarianismo, enquanto identidade histórica, alimenta a ideia de que a Venezuela não é um país periférico qualquer, mas um sujeito histórico da emancipação latino-americana. Esse sentimento de centralidade histórica é, internamente, uma fonte de coesão, orgulho e resistência cultural, sobretudo em contextos de cerco econômico e deslegitimação internacional.

*Maria Luiza Alencar Feitosa. Professora de Direito da UFPB, via Facebook de Lau Siqueira.

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