domingo, 8 de fevereiro de 2026

Homens de Pouca Fé - Machado de Assis, Chico César e Zeca Baleiro entre Deus & o Diabo.

.  Por Belarmino Mariano*

As vezes, autores do final do século XIX e início do século XX, influenciaram gerações por décadas e séculos. Acredito que Machado de Assis tenha sido um deles, pois deixou um dos maiores legados da literatura brasileira.

Aqui a ideia é trazer dois parceiros da Nova MPB, Chico César e Zeca Baleiro, para analisar se foram influenciados por Machado de Assis, usando como exemplos o conto "a Igreja do diabo"(Machado); a composição de Chico, "Perto demais de Deus" e a de Baleiro "Heavy Metal do Senhor"

A Igreja do Diabo é um conto escrito por Machado de Assis, em 1883, para o Jornal A Gazeta de Notícias. Na obra, o diabo resolveu fundar a sua própria igreja e utilizou a linguagem da lógica racional e coerência argumentativa para convencer os fiéis de que, seus vícios, crimes e pecados são partes da natureza humana e devem ser compreendidas enquanto virtudes a serem seguidas.

Os sete pecados capitais estão diretamente relacionados aos comportamentos humanos, todos justificados pelas atitudes e comportamentos sociais. A moralidade e a imoralidade estão no cerne das questões machadianas sobre os vícios e pecados humanos.

A Igreja do Diabo está dentro de cada prática da religião, pois não importa se é o pecado da: cobiça, gula, inveja, ira, luxúria, soberba ou traição aos pais. De alguma maneira, você estará fadado a cometer qualquer um ou mais de um desses pecados em diferentes momentos de sua vida.

Nos irônicos argumentos de Macho de Assis, o diabo com sua linguagem rebuscada convence os fiéis que os pecados, na verdade, são virtudes que estão na natureza humana e com as quais devemos lidar com tranquilidade. Mas em algum momento, a ilusão e falseamento da realidade poderá ser percebida e a doutrinação diabólica poderá cair por terra.

Parece até que Machado estava escrevendo para hoje, pois estamos diante de narrativas e de pastores cristãos que cometem todos os pecados capitais de maneira turbinada, assim como levam seus fiéis às mesmas práticas. Na atualidade, as teologias, da prosperidade e/ou do poder político, com o envolvimento de igrejas em corrupção, desvio de dinheiro público, exploração política, econômica e espiritual dos fiéis, dão o tom de muitas congregações religiosas.

Na letra da música "Perto demais de Deus", o cantor e compositor Chico César, faz alertas semelhantes aos de Machado de Assis, bem realista e com fortes argumentos que não são apenas retóricos. A ideia central é de que, "essa gente é o diabo e faz da vida de Deus um inferno". 

Chico não faz o papel diabólico de convencer as pessoas sobre seus pecados, enquanto virtudes, mas sobre um Deus que vive sufocado diante de fiéis completamente mergulhados em pecados e perturbando Deus em todos os momentos.

Chico, diferente de Machado, apenas observa que: 
"Tem gente perto demais de Deus; Tem gente que não deixa Deus sozinho; e diz Deus ilumine seu caminho(...).
E guarda Deus na cristaleira;
Cristo perto dos cristais;
Cristo assim perto demais
Cristo já é um de nós
Carne e osso pão e vinho" (...)

Os fiéis e religiosos, estão constantemente voltados para os exageros religiosos, onde Deus virou um misto de imagem, representação e constantemente, uma espécie de empregado dos caprichos, desejos e necessidades humanas.

Chico César está convencido que: "Tem gente que não deixa Deus em paz; Tem gente incapaz de viver sem Deus;
E o trata como um funcionário seu; Deus me livre, Deus me guarde, Deus me faça a feira
Cristo dentro da carteira
Dez por cento rei dos reis
Cristo um conto de réis
O garçom não a videira
Essa gente é o diabo
E faz da vida de Deus um inferno (repete três vezes e repete os estrofes anteriores)".

No conto de Machado de Assis, o Diabo organiza sua própria igreja e com dogma e doutrinação, tenta convencer os fiéis de que, o que a Igreja do Senhor considera pecado capital, ele ensina como virtude a ser seguida e praticada sem medo, dó ou piedade. Na Igreja do Diabo "é proibido proibir", em um misto de pesnse, sinta e faça o que der vontade ou vier na cabeça.

Na composição "Heavy Metal Do Senhor" (Zeca Baleiro), afirma que: "O cara mais underground que eu conheço é o Diabo
Que no inferno toca cover das canções celestiais
Com sua banda formada só por anjos decaídos
A platéia pega fogo quando rolam os festivais (...)

É uma composição musical ao estilo rick mental pesado, mas a letra é conto perfeito, poesia irônica e crônica das diferentes imagens que temos sobre as ideias de Deus, Diabo e pecado original. "Sexo, Droga e Rock and roll". Não se trata de um rock ou banda satanista, como alguém poderia pensar, mas a ideia é humor, sarcasmo e ironia, diante de figuras que condenam comportamentos ou padrões estéticos em relação ao gosto musical de cada um. 

Inclusive, existem discursos de ódio pregados em púlpitos e altares, contra os velhos ateus, afirmações de que ateus são satanistas, adoradores do diabo e a ideia de rock como música do satanás.

Mas, nas últimas décadas, os cantos dominicais, os corais de jovens vestidos de anjos celestiais, estão perdendo espaço para bandas golpel que tocam rock pesado, durante as missas e cultos evangélicos. 

Também é uma observação de experiências religiosas para atrair jovens para os púlpitos e palcos de fé. Em algumas denominações neopentecostais, observamos bandas musicais tocando músicas ou hinos religiosos aos estilos do rock, forró, sertanejo etc. O que era considerado mundano, imundo e infernal, passou a servir de chamariz religioso.

Na segunda parte de música Baleiro, aponta um paradoxo entre Deus e o Diabo ao afirmar que: "Enquanto isso Deus brinca de gangorra no playground do céu com santos que já foram homens de pecado
De repente os santos falam: Toca, Deus, um som maneiro
E Deus fala: Aguenta, vou rolar um som pesado
A banda cover do Diabo acho que já tá por fora
O mercado tá de olho é no som que Deus criou
Com trombetas distorcidas e harpas envenenadas
Mundo inteiro vai pirar com o heavy metal do Senhor" (...).

Durante séculos a igreja queimou pessoas na fogueira por identificar que estava em pecado. Mulheres eram queimadas vivas, pois eram vistas como bruxas, feiticeiras ou enviadas pelo diabo para atentar o homem. Cientistas iam para a fogueira, simplesmente por descobertas científicas que contrárias as doutrinas e aos dogmas religiosos.

No século XX, estilos musicais como o "Rock and roll ou heavy metal" eram considerados "coisas do diabo", pecado que era condenado por padres e pastores cristãos. Mas, em algum momento, "as trombetas distorcidas e harpas envenenadas", começaram a fazer parte da literatura musical e da liturgia em algumas denominações protestantes e católicas.

Então, se o Rock and roll ou heavy metal eram músicas de protesto do pós segunda guerra mundial (1939-1945), ganhando espaço na discografia e festivais a partir das décadas de 1950-1990, no século XXI, entraram nas igrejas neopentecostais pela porta da frente, atraindo jovens e originando o estilo rock gospel.

Outro fenômeno religioso, mais recente é o uso de linguagem diabólica dentro dos templos evangélicos, em que, pastores, comandam shows músicas, além de invenções em que, pessoas contratadas encenam que estão incorporadas pelo diabo e esse maligno, geralmente fala diretamente do púlpito e no microfone da igreja, são transmitidos ao vivo e a cores, usando línguas estranhas e fazendo ameaças aos fiéis que não estejam cumprindo os mandamentos e não depositem as oferendas e dízimo.

Hoje em dia se fala em "shopping da fé", onde tudo é por dinheiro, prosperidade e poder, inclusive com muitos religiosos se transformando em políticos, formando poderosas bancadas parlamentares evangélicas e ocupando cargos de poder em diferentes esferas. Pastores e bispos são donos de partidos políticos e dentro das igrejas, parece que ocorrem verdadeiras lavagens cerebrais em prol da extrema direita.

Na atualidade é comum vermos movimentos políticos, com pastores induzindo fiéis a fazerem armas dentro das igrejas, estimulando o ódio, com as bíblias em punho e pedindo intervenção militar, com a volta da ditadura e perseguição ao estado laico e democrático.

Nestes dias, vi evangélicos com bandeiras dos Estados Unidos e de Israel, os dois países que mais alimentam guerras e genocídios contra a humanidade. Isso mesmo, protestantes apoiando o sionismo, parece uma disfunção cognitiva, pois na própria bíblia fixa claro que a crucificação de Jesus foi uma exigência dos religiosos judeus e que até hoje consideram Jesus Cristo um impostor e falsário.

Quem é o diabo, diante de pastores que organizam bancos digitais, ao exemplo do Banco Máster do Pastor Daniel Vorcaro e/ou o Clava Forte Bank (fintech) do pastor André Valadão, da igreja da Lagoinha. Essas instituições financeiras, comandadas por pastores, estão envolvidas no maior escândalo de fraude financeira do Brasil, inclusive roubando dinheiro de aposentados pelo INSS.

Mas eles não estão sós, inclusive, contam com a participação de dezenas de políticos da extrema direita e da bancada evangélica, com líderes de partidos do centrão, prefeitos, governadores, deputados federais e senadores da direita e extrema direita, então fica a questão: Machado foi assertivo ao escrever um conto sobre a ideia de uma igreja do diabo e se sim, será que influenciou o Chio e o Baleiro em suas composições sobre o tema?

*Por Belarmino Mariano - Série Velho Ateu. Imagens das redes sociais.
Fonte: Musixmatch; Aventuras da História e Zeca Baleiro Letras.

1572 - Massacre da Noite de São Bartolomeu

.  Por Edvaldo Carlos de Lima*

Você ja ouviu falar no Massacre da Noite de São Bartolomeu. Em 24 de agosto de 1572, os católicos franceses que enfatizavam as boas ações do cristianismo, atacaram comunidades de compatriotas protestantes, que ressaltavam o amor de Deus pela humanidade.

Nesse ataque foram assassinados entre 5 mil e 10 mil protestantes em menos de 24 horas. Quando o papa em Roma ouviu as noticias vindas da França, ficou tão contente que organizou orações festivas afim de comemorar a ocasião e contratou Giorgio Vasari para decorar um dos aposentos do Vaticano com um mural que retratasse o massacre (o aposento atualmente está fechado à visitação pública).

Mais cristãos foram mortos por outros cristão naquelas 24 horas do que pelo Império Romano politeísta em toda a sua existência. Para mais informações sobre a violência do Cristianismo, leia Yuval Noah Harari, 2020). Um abraço a todos e todas.

*Edvaldo Carlos de Lima (Sério o Velho Ateu). Prof. PhD de Geografia Agrária pela UEPB, Campus I.
Fonte: https://www.facebook.com/share/p/1Ddn7UfJ2d/