quinta-feira, 26 de março de 2026

A Páscoa como uma Metáfora de Ilusões

   Por Belarmino Mariano*

Jesus não tinha religião, nem deixou religião, mas foi um crítico ferrenho do judaísmo de sua época. Tanto foi que os judeus exigiram do império Romano a sua condenação e pena de morte por crucificação.

Para os judeus da época em que Jesus caminhava pelas ruas de Jerusalém, ele era um impostor e falsário, querendo se passar como o filho de Deus. 2026 anos depois e os judeus pensam a mesma coisa sobre Jesus.

Então, o que justifica, pastores que passaram a declarar apoio total aos governos sionistas e extremistas de Israel? Usam sua bandeira nacional e fazem apologia ao sionismo, afirmando que Jesus era um judeu. O fato de ter nascido na Palestina não tornaria Jesus um Judeu.

Depois de quase um século da crucificação de Jesus, o decadente império romano, em busca de unidade político cultural, inventou uma nova religião baseada em uma trilogia metafísica e mítica e colocou Jesus como filho de Deus, "o Pai, Filho e o Espírito Santo".

Para lhe dar uma base histórica, compilou alguns livros do Velho Testamento hebraico e assim foi fundada a Igreja Católica Apostólica Romana. Como o império era politeista, transformou apóstolos e discípulos em santidades e cada comunidade poderia escolher a Santidade de sua preferência.

Aos poucos Jesus Cristo foi se transformando no Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo e ao longo dos séculos, foi ganhando diferentes dogmas e configurações de fé e poder.

O Jesus do amor ao próximo, da comunhão e da compaixão, foi transformado no Senhor dos Exércitos, na glória eterna e no próprio Deus. Quando as coisas estavam erradas era a vontade de Deus/Jesus, para castigar os infiéis e pecadores. Quando davam certo era a Glória do Senhor.

Os dogmas e a manipulação da fé revestiu Jesus de acordo com os interesses e acordos das corporações e interpretação dada por diferentes denominações cristãs.

A Páscoa está chegando e dentro dela, existe um Jesus que não come bacon ou carne de porco. Na páscoa nenhum cristão deve comer carne.

Mesmo não sabendo sobre o café, existe um Jesus que não toma café, parece até que esse Jesus prefere chá. Juro que nunca entendi essa ideia de um Jesus Cristo que não aceita café em sua igreja.

Ainda tem um Jesus mais sofisticado e exigente com a estética dos seus fiéis, exigindo o uso de terno e gravata para os varões e uso de vestidos longos para as varoas.

Com base nos velhos livros de Malaquias que não tem nada haver com o Cristianismo, surge um outro Jesus que exige que você dê dinheiro para o pastor. Pode ser dinheiro vivo, débito em cartão de crédito, Pix ou outra modalidade, mas todos devem pagar seu dízimo e ainda fazer outros tipos de oferendas materiais como: carro, motos, casas, apartamentos, lotes etc.

Para completar, ainda tem um Jesus que exige que você vote em políticos da extrema direita. Que o pastor transforme a igreja em palanque e o púlpito em espaço sagrado para o pedido ou a exigência de votos, para os políticos do esquema do pastor.

Então esses diferentes tipos de Jesus, são todos criados por gente que usa Jesus para ludibriar você e a sua família. E não é um caso isolado, uma situação constrangedora que tenha sido superada pela própria comunidade religiosa.

Sem falar de um Jesus que adora doces e chocolates, que estimula o comércio e faz a alegria dos grandes empresários, em especial nas grandes redes de supermercado e lojas exclusivas. Nos pés dos pais, as crianças oram e clamam por um grande ovo de páscoa, geralmente de um coelho também de chocolate.

Em nome de Deus e de Jesus, pastores se envolvem em corrupção e lavagem de dinheiro público. Fundam bancos, financiam políticos e criam partidos de extrema direita, com lemas conservadores, mas cheios de falcatruas. Algumas igrejas parecem Shoppings da fé e até estímulo a violência e ao ódio ocorrem dentro dos templos cristãos.

Nessa páscoa é bom que se diga, o Jesus que defendia os pobres e miseráveis, o misericordioso, da compaixão e do amor ao próximo, esse foi morto por crucificação a pedido das autoridades religiosas de Israel, o mesmo Israel que continua atacando nações vizinhas, ocupando seus territórios e massacrando os supostos "inimigos do seu Deus".

*Por Belarmino Mariano. Da série Paradoxos bíblicos. Imagens das redes sociais.

segunda-feira, 9 de março de 2026

O Sintoma Donald Trump

Por: Michael Jochum; Álvaro Wolmer. Via Marilda Bassi e via Blaut Ulian Junior*

Melhor texto sobre Donald Trump (e serve para o caso Bolsonaro) que já li. A tradução foi feita por IA. Pra quem preferir ler o texto original, é só acessar minha postagem anterior. 

"Eu costumava me perguntar como era possível que Trump pudesse ter vencido em 2016, e novamente em 2024, dado o quão emocionalmente tóxico e depravado ele é.
Não me pergunto mais. Acho que ele venceu exatamente por esse motivo. Porque ele carregava ao menos um estilhaço quebrado para refletir os estilhaços quebrados em milhões de outras pessoas.
Se você é racista, encontrou seu cara. Se você é misógino, encontrou seu cara. Se o dinheiro é sua única religião, encontrou seu cara. Se seu coração está blindado e fechado, encontrou seu cara. Se você zomba de deficientes, encontrou seu cara. Se a inteligência o deixa inseguro, encontrou seu cara. Se você é um predador sexual, encontrou seu cara. Se você negocia com humilhação, conspiração e sujeira, encontrou seu cara. Se você nunca fez uma única hora de inventário emocional, encontrou seu cara. Se você engana, dá calote em prestadores de serviço, negligencia suas obrigações e chama isso de esperteza, encontrou seu cara. Se você mente com a mesma facilidade com que respira, encontrou seu cara. Se a crueldade parece força, encontrou seu cara. Se o ressentimento branco é sua comida afetiva, encontrou seu cara. Se seu ego é um buraco negro que título nenhum pode preencher, encontrou seu cara. Se o belicismo alimenta seu ego, encontrou seu cara. Se a empatia parece fraqueza e a dominância parece oxigênio, encontrou seu cara.
Se ele carregasse apenas uma ou duas dessas patologias, poderia ter sido descartado como apenas mais um homem barulhento e danificado. Mas ele carregava um banquete delas. Esse era o apelo. Milhões puderam se localizar em algum lugar em meio aos destroços. Eles não precisavam concordar com tudo. Eles apenas tinham que reconhecer um pedaço de si mesmos ali.
Nunca foi realmente sobre ele. Foi sobre a validação. A absolvição. A permissão. Ele não inventou o ressentimento; ele o amplificou. Ele não criou a crueldade; ele a normalizou. Ele deu a milhões o alívio inebriante de ouvir seus impulsos mais feios ecoados em volume de comício.
Trump é um sintoma. A doença mais profunda é coletiva. Se existe uma frase que define seu poder, é esta: “Ele diz as coisas que eu estou pensando.”
E essa é a parte que deveria nos causar calafrios.
Porque o que diz sobre nós o fato de tantos estarem pensando aquelas coisas? Que dezenas de milhões de americanos abrigavam ressentimentos tão profundos, tão fervorosos, que estavam simplesmente esperando por um demagogo para batizá-los como virtude? Que, após décadas de suposto progresso em raça, gênero e igualdade, tantos homens brancos se sentissem tão ameaçados, tão deslocados, tão furiosos, que a crueldade se tornou uma plataforma política?
Talvez estivéssemos vivendo em um paraíso de tolos, confundindo silêncio com cura, polidez com progresso.
Agora a máscara caiu. Agora nós sabemos. E saber é um lugar muito mais perigoso para se estar."

*– Michael Jochum, Não Apenas Um Baterista: Reflecções sobre Arte, Política, Cachorros e Condição Humana.
Álvaro Wolmer

quarta-feira, 4 de março de 2026

Os Próprios Cristãos Confundem Tudo Sobre o Apocalipse e o Armageddon.

Por Belarmino Mariano*

Muitos cristãos imaginam que o Apocalipse, seja apenas um livro sagrado dentro do Novo Testamento, escrito pelo Profeta João, um dos apóstolos de Jesus, que já era adulto e viveu com Jesus e os outros apóstolos, mas só escreveu seus livros como: "Evangelho de João, três epístolas (I, II e III João) e o livro do Apocalipse durante seu exílio na ilha de Patmos (por volta de (95 d.C.).

Como poderia o apóstolo João, um homem adulto, pescador da Galileia e irmão de Tiago, ter participado do grupo restrito de Cristo, presenciando momentos cruciais como a Transfiguração, a Última Ceia e a Crucificação, tendo visto a Ressurreição e ainda ter vivido mais 95 anos, depois da morte de Jesus?

Se o apóstolo João tivesse uns 35 anos, quando Jesus foi crucificado, 35+95, daria 130 anos de vida. Se João tivesse escrito o Apocalipse no ano 65 d.C., ele teria morrido com 100 anos, mesmo difícil, até seria admissível. 

Mesmo assim, seria estranho, pois houve uma grande perseguição aos Cristãos, tanto pelos romanos, quanto pelos israelitas e João estava na linha de frente, ou na vanguarda do Cristianismo.

A outra questão que nos inquieta na atualidade é sabermos que os próprios Cristãos confundem eles próprios sobre a ideia de metáfora e realidade literal dos textos sagrados, como o Apocalipse e outros, sem ao menos fazerem uma exercício de raciocínio a respeito do significado e conceito para determinados termos bíblicos como: Apocalipse e Armageddon. 

O Apocalipse é o último livro do Novo Testamento da Bíblia Sagrada do Cristianismo, escrito pelo apóstolo João, cujo termo grego apokalypsis significa "revelação de Deus".

"O livro retrata uma revelação de Jesus Cristo dada a João sobre o fim dos tempos, a própria volta de Cristo, o juízo final e a criação de um novo céu e Nova Terra, trazendo esperança final aos fiéis e destruindo os infiéis no Armageddon final.

O que as pessoas não entendem é que Apocalipse é uma linguagem ou forma exagerada de escrever (hipérboles), apelando para fenômenos misteriosos, místicos ou mitológicos, sobre o futuro da humanidade pecadora e infiel a Deus.

Talvez, o que muitos cristãos não saibam, mais, os primeiros escritores com esse gênero literário apocalíptico, foi o Profeta Daniel no Antigo Testamento. Esse ideia profética arrebatadora, do fim dos tempos e da volta de Deus para julgar os pecadores infiéis.
Na mesma linha, iremos encontrar essas imagens e imaginações de linguagem apocalíptica nos profetas Ezequiel, Isaías e Zacarias. Todos focados nos pecados dos israelitas e prevendo um retorno de Deus, cujo objetivo é julgar os pecadores e purificar Jerusalém do mal.

Essa dialética do bem contra o mal e a humanidade totalmente perdida e dominada pelo demônio, precisando ser resgatada e salva espiritualmente. Inclusive, a ideia central é que Deus destruirá a Terra (Armageddon) e construirá uma Nova Terra, uma Nova Jerusalém, completamente livre do mal.

Então fica claro que, se o Apóstolo João teve forças para escrever esse livro, quando estava com mais de 100 anos ele não partiu do nada, ou apenas de sonhos e revelações divinas. Certamente, teve contato com as palavras do profeta Daniel e outros.

O livro é de uma linguagem simbólica, hiperbólica, imaginária e distópica (profecias apocalípticas). Diferente de muitas interpretações ou entendimentos sobre guerras humanas (geopolítica atual), o livro de João descreve "batalhas espirituais", "conflitos de egos dentro do próprio seres humanos e de sete igrejas e sete selos ou incógnitas, bem como, o Deus que volta a Terra para o julgamento do mal e finaliza com o Armageddon e o triunfo final de Deus.

Ou seja, o objetivo final é demonstrar que Deus vencerá o pecado e o mal, restabelecendo uma "Nova Jerusalém", não como um lugar, um país ou território entre vales e montanhas, mas um "Jerusalém Espiritual", onde não haverá mais dor ou morte para aquele passar pelo Juízo Final.

Logo, essas guerras geopolíticas, tanto do Antigo Testamento, quanto das Cruzadas medievais entre Cristãs e Mouros ou as atuais disputas entre sionistas, palestinos e/ou iranianos, com direto interesse do imperialismo dos USA e países da Europa, não se aplica em nada ao bíblico apocalipse.

Por que refletir sobre essas questões na atualidade? Bem simples, governos ditadores, extremistas de direita, que se dizem israelitas ou cristãs, utilizam determinadas interpretações da bíblia para justificar massacres, guerras, genocídios. Quando na verdade as guerras são puramente por interesses políticos, econômicos e territoriais.

Então provocam invasões, atentados, massacres de civis e propagam nos grandes meios de comunicação uma "batalha do bem contra o mal". Enquanto isso, pastores, padres e outros plebisteros entoam discursos de ódio, no final dos tempos, e da chegada do apocalipse e Armageddon final. 

Mesmo que o Apóstolo João (16:16), comente que os reis da Terra, liderados por forças demoníacas, se reúnem para guerrear contra Deus. Não podemos deixar o Islamismo de fora dessa perspectiva apocalíptica, pois é uma religião de descendentes de Abraão, mesmo que o patriarca tenha abandonado sua descendência de Ismael a própria sorte.

No Islamismo, o termo apocalipse (al-Qiyamah), explica sobre o fim dos tempos e o juízo final. No Alcorão os textos estão dispersos e focam na corrupção do mundo, o surgimento de Dajjal (falso profeta), o retorno de Jesus (Isa) e o dia do juízo final.

Nas três religiões monoteístas do Oriente Médio (Judaísmo, Cristianismo e Islamismo), parece que o bem ou o mal, estão neles próprios e não na vontade dos seus deuses, mas em nome deles se matam e cometem todo tipo de atrocidades, para além do mundo espiritual. 

Aqui e agora a questão central é o dinheiro, o poder político e a disputa territorial aos extremos da irracionalidade, em que as armas de destruição em Massa, não foram enviadas por nenhum Deus. Logo, o tal Armageddon pode ser apenas mais uma invenção humana e Deus é apenas um bode expiatório da própria maldade humana.

*Por Belarmino Mariano. Da Série Paradoxos Bíblicos. Imagem das redes sociais.
Fonte: Bíblia On-line.
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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Mulheres, quem muito escolhe, sempre fica com o melhor

Por Belarmino Mariano*

Quem muito escolhe, sempre fica com o melhor! Nem sempre! Gritou Dona Eulália Aparecida Galvão, mulher experiente e vívida. Eu mesmo, fiquei entre o traste do pai dos meus filhos e outros cinco. Minhas melhores amigas, sem muita frescura, se deram bem melhor que eu.

Nem mesmo Amélia, que era uma "mulher de verdade", real, mas idealizada por
Ataulfo Alves e Mário Lago, teve tanta certeza em suas escolhas. Entre uma das várias mulheres que poderia ser, preferiu ser submissa, dedicada e sem vaidades, escolheu ser  exclusivamente recatada e do lar.

Sempre achei que Amélia faria uma excelente escolha e com tanta beleza, com tantos atributos de uma "mulher de verdade", escolheu passar fome ao lado do amado que nunca teve nada, mas que, se tivesse, certamente viraria as noites em serestas, bares e boêmia.

Escolha certa foi de Zeli Cordeiro (Zeni), que  sem muito arrodeio, escolheu Mário Lagos. Era uma mulher de esquerda, avançada e moderna. Logo cedo se envolveu com o Comunismo, com as lutas sociais e foram felizes, sem submissão machista. É verdade que passaram perrengues com a perseguição política e prisões de Lago, mas nada tem haver com escolher demais.

Não podemos confundir a doméstica e servil Amélia dos Santos, da música de Ataulfo e Lago, com a Imperatriz Amélia de Leuchtenberg (Franco-Bávara) que foi a segunda esposa de Dom Pedro I e se tornou a imperatriz consorte do Brasil por três anos. Essa Amélia, apesar de ter se tornado imperatriz, ficou viúva muito cedo e, depois de 5 anos de casada, com a morte de D. Pedro, ela se vestiu em vestidos pretos e entrou em um luto profundo, sem nunca mais querer saber de homens.

Amélia dos Santos, queria e poderia ter sido um monte de coisas, escolheu tanto, mas acabou se tornando a doméstica de Aracy de Almeida. Não que ser doméstica seja um problema de escolhas. Na maioria dos casos, não houve oportunidade para outros degraus e a aceitação cativa nos prende para sempre.

Dona Eulália Galvão ainda disse que ficava pensando na esposa do profeta Malaquias, que nem mesmo o nome e origem são citados no livro sagrado. Teve tantas escolhas, tantos outros guerreiros, pescadores ou camponeses a lhe cobiçar, mas nem o direito de escolha lhe permitiram fazer. 

Ela foi "jogada na cova dos leões" e seu varão, que tantas profecias fez, nenhuma vez citou seu nome. Para aquele o varão Malaquias era uma serva do marido, "uma Amélia dos tempos da Bíblia" e foi completamente apagada da história do povo escolhido por Deus, como se as mulheres não tivessem nenhuma importância, naquele reino, onde poderíam serem apedrejadas até a morte.

Não sabemos quem escolheu quem?!? Mas ficamos a imaginar a Lindaura Martins, esposa oficial de Noel Rosa, uma mulher do lar, sabendo que ele amava outra, ou era profundamente apaixonado por Ceci, sua musa inspiradora. Apesar de outros namoros e romances, Noel Rosa deixou um grande legado de amor, paixão e sofrência romântica por Ceci, que sempre foi tema para suas composições.

Juraci Coreia (Ceci) era feliz como dançarina de Cabaré, vivia as noites cariocas e a boemia dos homens, bares, tabagismo e bebidas alcoólicas. Para a sociedade da época, ela era  uma libertina, o avesso de Amélia ou Lindaura e foi quem dilacerou o coração de Noel. 

Entre sua ardente paixão, dor e sofrimento talvez tenha sido o poeta, cantor e compositor que escolheu retratar uma mulher brasileira com tanta paixão. Mas a música popular brasileira é cheia de outras musas entre elas as morenas cariocas, baianas ou tropicanas.

Músicas de Noel como:  "Último Desejo", "Pra que Mentir" e "Dama do Cabaré". Entre tantas, estão nos álbuns de dezenas de intérpretes e dão  ao Brasil o legado de tantas composições em que as mulheres são grandes musas inspiradoras, mas em muitos casos, apenas musas, pois na realidade, suas escolhas quase sempre lhes colocam nas mãos de homens brutos, agressores e violentos.

Como diz o compositor Luiz Gonzaga Júnior (Gonzaguinha), "Matilda, hô Matilda, o bicho ruim quando não tem do que dá cabo, primeiro morde o rabo e depois vai se comer (...)". Poderia ter escolhido outros poemas de amor de Gonzaguinha, como "Sangrando", "Lindo Lago do Amor" e "Espere Por Mim, Morena",  pois neles a paixão, a entrega e a beleza das relações humanas são muito mais intensas.

Mas a ideia aqui foi apenas alertar as mulheres para suas melhores escolhas, pois muitos homens se enquadram no "universo do bicho ruim, perverso e maligno". Em especial, aquele que se veste de santo e nunca se coloca no lugar da outra. Diferente de Chico César, que mesmo mal interpretado, nos alertou que "sabe como pisar no coração de uma mulher, pois já foi mulher", já esteve nesse lugar de amar profundo, de se cortar por dentro e sangrar de paixão, diante de escolhas, muitas vezes frustradas.

Chico César ainda assim, nos diz para irmos "vestidos de amor, para o amor encontrar". Para nos "vestirmos de utopia e sairmos com as nossas namoradas, mesmo com o riscos de baques atrapalhados".

*Por Belarmino Mariano. Quando março chegar. Imagem das redes sociais.

Caminhada

.  Por Belarmino Mariano*

Além do silêncio e da calmaria, o que me impressiona aqui é não saber onde estou e tenho uma ligeira sensação de que me encontro em lugar nenhum. Diria mais, se trata de um lugarejo pequeno e a paisagem urbana é de povoado ou distrito isolado no meio do nada. Pelo olhar geográfico, se encontra entre cinco ou seis ruas, no entorno de uma pedra grande.

Não existe uma periferia urbana, pois tudo se resume ao centro histórico habitável, em que, bastam de 20 a 30 metros da pedra grande, para se ver o lado de fora daquele lugarejo encantado.

Na verdade, a pedra nem é tão grande assim, se trata de um lageado, circundado por planuras, em meio a um emaranhado de serras do planalto cristalino. Nas áreas de terra, dos poucos arruados, foram feitos calçamentos irregulares de fragmentos rochosos.

Um trabalho de suor e sonho dos poucos moradores e fundadores pioneiros. Como mencionei, um cantinho tranquilo e calmo, onde é possível ouvir o sumbido dos ventos, orquestrando uma cantilena suave e agradável de som e brisa fria, típicos de regiões com acidentes geográficos.

Lá não existe eletricidade instalada, mas, ao lado da estrada de acesso ao povoado, existe uma linda lagoa de águas cristalinas que abastece aquela comunidade com suficiência. Também é um lago no meio do nada, uma formação natural típica do relevo acidentado e do côncavo e convexo por entre as serras.

Certamente é um reservatório de águas das chuvas, que caem e escorrem para aquela baixada, através de um paredão rochoso e outras encostas cristalinas de uma geomorfologia fantástica.

O clima ameno em meio a tropicalismo regional, nos faz lembrar da ideia de refúgio ecológico em meio aos ecossistemas de planaltos continentais, sem uma exatidão altimétrica, as indicações geográficas apontam para médias de 550 a 600 metros em relação ao nível do mar.

Os moradores daquela redondeza são todos negroides de origens africanas e, conta a lenda que escaparam de um navio negreiro que afundou na costa do nordeste brasileiro a cerca de 300 anos, quando se chocou contra rochedos marinhos das terras da nação Potiguara.

Dos destroços da embarcação, salvaram algumas ferragens como foices, machados e facas que eram usadas para escambo com o Potiguara. Entre os mortos e feridos, não restou quase ninguém, em especial da tripulação de homens brancos que comandavam aquela nau afundada pelos traiçoeiros arrecifes de corais.

Dos pioneiros, apenas um leva de 08 negros jovens e 03 mulheres negras que, no desastre fatal, juntaram tudo o que podiam e ao amanhecer, se embrenharam na mata virgem, se afastando ao máximo da costa. Não sabiam onde estavam e viram ao longe um grande grupo de guerreiros locais se aproximando do que restava daquele naufrágio.

Eles estavam se preparando para um motin e já vinham movimentado os braços e pernas para se libertarem das amarras. Quando cerca de 15 ou 20 negros conseguiram se liberar das amarras, entraram em confronto corporal contra tripulantes e na escuridão da noite, aquele conflito gerou a perda do controle da embarcação.

Isso era o que contavam os mais velhos. Eles chegaram aqui como escravizados, mas o mar os libertou, antes mesmo de atracarem na praia. Como fugiram assombrados com o desastre e a imensidão de terra e mar, não conseguiram contar os mortos, mas a tripulação era de aproximadamente uns 180 homens e mulheres amarradas em cordas e no fundo do tumbeiro, era quase impossível escapar.

Não sabem precisar o ano e nem o local exato, nas pelas histórias dos velhos, viajaram mais de 15 ou vinte dias, se esgueirando por entre as margens do grande rio curimataú (do tupi kurimata-úna), até chegarem as serras com pedras de bocas e barro avermelhado. Mas ainda seguiram por mais alguns dias até se instalarem naquele esconderijo encantado.

Eles dizem que foram prisioneiros da escravidão, pois seus antepassados ficaram mortos no fundo do mar e na África mãe. Aqui na terra firme, por entre as serras e caatinga que seca no verão e verdeja com as chuvas, eles se acosturam e vivem o silêncio e a calmaria dos diasce noites, mas ainda se assombram com o desconhecido.

Quando cheguei a esse lugar estava perdido, caminhava por trilhas incertas e havia começado uma grande chuva, com relâmpago e trovão. Eles me acolheram e, mesmo desconfiados, me deram guarida, um café quentinho com cuscuz e carne cozida. Juro que, com pingos fortes de chuva nos telhados e nas pedras, nem queria acordar.

*Por Belarmino Mariano. Da série Sonhos.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Um Cafezinho quente e a mordida em um pão

Por Belarmino Mariano*

Bom dia pessoal, mak terminou o carnaval e já estamos em 23 de fevereiro. O ano mal começou e já temos quase 60 dias de muito sol e muita chuva. Já estamos na quaresma e nada como o pão nosso de cada dia. 

Mas, nem tudo é sobre pão com queijo de coalho. Às vezes é sobre um pingado na padaria do supermercado. Um cafézinho moído na hora, com leite. Mesmo que outras delícias estejam expostas no balcão.

O queijo você pega do setor de fatiados, o pão você pega nos cestos de pão e o rapaz que passa o café faz o sanduíche na hora. Não fica tão caro quanto os cafés de aeroportos ou shoppings.

Aqui no Supermercado Bem Mais de Guarabira é assim. Não é nenhum comercial, mas gosto do atendimento e da atenção dos trabalhadores desse estabelecimento.

Sempre compro café São Braz em grãos por aqui. Notei que não tinha nenhum pacote na seção. Indaguei para uma atendente, se era possível ter em estoque? 

Ela foi em busca da informação. Enquanto tomava meu café, ela chegou com alguns pacotes de café bem grão. Posso dizer que fui muito bem atendido em todos os sentidos. Ela enquanto se aproximava disse, aproximou um dos pacotes no rosto e disse: "o café em grãos é muito cheiroso".

Por Belarmino Mariano. Da Série Cotidiano. Imagem do autor.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

“O agente secreto” e as Travessuras do Tempo.

Por Lau Siqueira*

No Diário de Vanguarda, algumas impressões sobre o filme O agente secreto. Link nos comentários. “O agente secreto” e as travessuras do tempo.

Finalmente começou o ano de 2026. O Carnaval acabou e já se passaram alguns dias desde que assisti “O Agente Secreto”. Não surpreende que o filme tenha agradado tanto público e crítica no exterior. São duas horas e quarenta minutos sem um único instante de monotonia. Saí do cinema sabendo que não tive olhos nem ouvidos para ver, sentir e ouvir tudo. 

O que vi foi um monolito. Uma história densa sendo contada enquanto outras tantas histórias são sugeridas e permaneceram abertas. Destaco inicialmente uma trilha sonora que realiza um percurso que vai da psicodelia de Harpa dos Ares, de Lula Côrtes e Zé Ramalho, aos clássicos do romantismo brega de Waldick Soriano. Não é por acaso que o cinema brasileiro está conquistando o mundo.

O filme oferece uma fratura exposta da nossa história recente com flashes de uma tragédia cultural brasileira que se moderniza, mas é permanente. Não se trata apenas de mais um roteiro sobre alguns dos muitos efeitos nefastos da ditadura brasileira. O diretor Kleber Mendonça Filho oferece outras tantas conexões surpreendentes. Revela o tanto de ficção que há na realidade e vice-versa.

O roteiro convida a viajar, sem alardes, nas quimeras do Brasil real. Mostra um país onde ainda pulsa uma normalidade repulsiva, refletida para muito além dos fatos. A exemplo do menino Miguel. Negligenciado no elevador, pagou com a vida por não receber a mesma atenção que sua mãe dava ao filho do prefeito. Ou nas iluminuras que celebram o poeta Miró da Muribeca. Kleber nos mostra que cinema pode ser também uma declaração de afeto.
 O roteiro percorre os modelitos da antipolítica e da necropolítica que sempre se blindaram nos mantos da falsa moralidade. Mostra a crueldade e a inocência convivendo sem culpas ou distâncias disfarçadas. O diretor soube captar a dimensão milimétrica de uma história que se alimenta do passado e que se faz cada dia mais fortalecida para o bem e para o mal.

Destaco ainda a escolha do elenco. Não importa em quantas cenas cada ator e cada atriz surge na tela. Todas as cenas são surpreendentes e contribuem decisivamente para que o filme seja o que é: um compacto de intensidades. Podemos dizer que há um protagonismo coletivo muito feroz. Cada corte é uma janela de infinitos. Tudo se multiplica e exige uma atenção permanente do público.

Da primeira até a última cena parece que há um rascunho sociológico de onde o diretor extrai um realismo fantástico. Aliás, a primeira cena poderia ser um curta. É uma história com começo, meio e fim. E é como um sumário do que ainda viria surpreender mais e mais. A banalização da morte, o olhar seletivo sobre a violência e a corrupção policial. A distância abismal entre crime e castigo. Tudo está posto.

Todavia o roteiro também oferece outras compreensões. É um convite aberto para outros olhares. O filme de fato escancara a espinha dorsal de uma ditadura. Mostra uma estrutura onde a corrupção vai tecendo destinos com sua crueldade presumida. O cotidiano é sustentado nas violências silenciadas. Dói saber o quanto a cultura autoritária permanece, mesmo não sendo mais tão absoluta.

Na estampa de situações reais, a subjetividade parece um fio invisível customizando o tempo. Uma Arca de Noé de memórias atemporais. O infinito reside nos detalhes de uma época em que fora dos calabouços a vida também pulsava seus medos e suas guilhotinas normativas. O filme revira memórias. Especialmente aquelas que não estão no roteiro.

A narrativa construída parece infinita e vai habitando lentamente a memória coletiva de diferentes formas. Faz revelações sem o charco incerto das certezas. Mostra o quanto somos ainda incipientes diante dessa abstração que é o tempo linear. Essa régua rasgando calendários. Como se o medo fosse uma perna cabeluda atravessando a praça.

Mesmo nesse ambiente de dissonâncias messiânicas em que vivemos, o cinema brasileiro vive um grande momento. A repercussão mundial da produção audiovisual brasileira começa a se estabelecer como um destino natural. “O agente secreto” é um filme para ser visto e revisto. Aguça uma sensibilidade que nos ajuda a ver o mundo sem a lente opaca das ilusões perdidas.