sexta-feira, 17 de julho de 2026

Balanço sobre os Festejos Juninos 2026 - da Paraíba ao Nordeste

.  Por Belarmino Mariano*

As imagens são faraônicas , são colossais e aos 43 anos de festas juninas, 2026 foi o ano, com as maiores polêmicas sobre muita interferência externa e descontentamento entre artistas locais e público em relação ao que já foi considerado "O Maior São João do Mundo."
Numa mistura de Copa do Mundo e festejos juninos de 2026, os brasileiros e em especial os nordestinos, ficaram quase todos divididos. Mas tiveram muitos que brincaram nas duas coisas. Assistir a copa e dançar forró.

Em alguns dos grandes palcos do forró, foram instalados telões para os poucos jogos do Brasil, seleção eliminada, antes mesmo de chegar às oitavas de finais.

Passada a derrota para a Noruega, onde o Brasil entregou a paçoca baratinho, nos restou fazer um balanço da tragédia dos festejos juninos em todos os Estados do Nordeste e mais especificamente na Paraíba.

Apesar das festas juninas serem comemoradas em todo o Brasil, é no Nordeste que ela acontece de verdade, mas parece que existe uma ação orquestrada para desmantelar esses eventos de maneira premeditada. E olha que o esforço é grande!

Nem estava mais querendo falar sobre festejos juninos, apesar de ter iniciado este artigo que certamente iria ficar sem publicação, diante de outros assuntos mais palpitantes, como as lambanças da extrema direita e o orçamento secreto, junto com o escândalo do Vorcaro e do Flávio Tarifação. 

Mas, depois que li no Portal ResumoPB que, os deputados estaduais Tova Cunha Lima e Camila Toscano, ambos saídos do PSDB e agora no MDB, conseguiram propor e aprovar um projeto de Lei que oficialmente tornou Campina Grande, como a cidade com o maior do mundo.

Isso mesmo, uma Lei foi criada com dinheiro público com salários dos deputados, assessores e verba de gabinete, para aprovação de leis sem nenhuma utilidade prática. Inclusive um São João feito com muita verba pública, sob administração de empresas privadas, inclusive com algumas de fora da Paraíba. Um São João cada vez mais descaracterizado, que sufoca pequenos comerciantes, artistas locais e regionais.

Cantores, compositores, bandas e trios de forró, todos os anos, reclamam que o São João de Campina Grande realmente é grande, mas perdeu a sua tradição e essência dos festejos juninos. Agora é um grande aglomerado de sertanejo, pagode, funk e outros "estilos modinhas", deixando o forró na última prateleira e, ainda humilhando os artistas locais e regionais.

Não estranhem o que vou dizer, mas noto que nos últimos 10 ou 15 anos, depois que o governo federal passou a investir e apoiar a cultura dos festejos juninos em parceria com governos estaduais e municipais, que passaram a receber milhões de incentivo ao Turismo, em especial nos últimos cinco anos, com grana de orçamento secreto e emendas impositivas. Muitos prefeitos, secretários de cultura e turismo passaram a vender para empresários privados, organização e ganhos econômicos desses grandes eventos. 

O dinheiro público, aos bilhões, parece que "cresceu o olho" de deputados, senadores, governadores e prefeitos em todos os lugares do Brasil. Nesses últimos anos, são bilhões que rapidamente viram pó e se transformaram em cachês milionários para um único cantor ou uma única banda.

Aí é onde começamos a observar que a tradição cultural perde o valor, e outros estilos, já consolidados nacionalmente, contratados pelos empresários que controlam os recursos passam a ocupar o lugar dos artistas locais e regionais.

O mesmo vale para grandes festas de rodeios do centro oeste, ou tradicionais festas de padroeiros, carnaval ou manifestações populares que 
passaram a vender, esses eventos que em sua maioria são pagos com dinheiro público.

Não é atoa que estamos acompanhando, grandes escândalos, envolvendo prefeitos, empresários e artistas, com contratos absurdos, em que fica clara a corrupção e o desvio de dinheiro público. 

Os maiores exemplos são de cantores sertanejos, com cachês milionários, nenhuma relação com forró, xaxado ou baião, mas abocanha sozinhos, milhões e milhões, muitas vezes de prefeituras pequenas como a de Belo Jardim (PE).

Mas escandalosa ainda é o caso de Campina Grande, Caruaru, Petrolina e outros grandes centros do interior nordestino, que nessa época, atraem milhões de brasileiros e milhões de turistas, que encantados pelas luzes, bandeiras, comidas típicas, bebedeiras e muitos shows, bem percebem a roubalheira que esta acontecendo por trás dos palcos.

Muita propaganda de bets, muita propaganda de marcas nacionais e a ressaca do dia seguinte precisa ser curada, pois são 30 dias de festas, quase que ininterruptas. É realmente espetacular, mas precisamos avaliar que existe um movimento armado para descaracterizar e desvalorizar completamente artistas locais e regionais e, isso não é de agora.

Estive no São João de Campina Grande e as atrações foram de Roberto Carlos, Marisa Monte, aos pagodeiros, funks e sertanejos. Marisa até se esforçou para cantar músicas de Luiz Gonzaga, levou um sanfoneiro e fez um show romântico e eclético para o dia Santo Antônio (festa dos namorados).

Agora imagina você ter que ficar bancando sertanejo e pagodeiro em pleno São João? Imagina os sertanejos ridicularizando a nossa cultura em pleno palco, desmarcando show na véspera e no dia da apresentação, rindo da cara dos prefeitos e da população, alguns inclusive embriagados.

Parece que a ideia é esculhambar, descaracterizar, criar ódio e raiva e provocar os nossos talentos. Uma geração inteira de cantores e compositores do forró nordestino, sendo excluídos, sendo humilhados, tendo seus shows cancelados, sem explicação.

O forrozeiro Flávio José, viu o Ministério Público da Bahia, fazer uma devassa sobre os seus cachês, que são até modestos, se comparados com os cantores sertanejos. Simplesmente ele teve seus shows cancelados. Assim como ele, dezenas de outros artistas nordestinos foram deixados de fora das grandes atrações juninas.

O forrozeiro Segal do Forró "o vaqueiro chorão". Fez uma crítica pesada aos organizadores do São João 2026. Ele começou questionando: "Por que o São João de 2026 foi o pior de todos os tempos?"

Segal não economizou e afirmou que: "Se ninguém fizer nada, vai acabar essa nossa tradição..." E não será por falta de recursos, mas a ideia é destruir parte da nossa identidade cultural e favorecer seus esquemas empresárias.

Volto a dizer que fui em Campina Grande e no Parque do Povo e não era mais o maior São João do mundo, era um festival de música sertaneja e outros gêneros de música, mas o forró passou longe. Até vi um trio de forró em uma pequena ilha, tocando para algumas dezenas de pessoas, vi outra ilha com menos gente ainda e gostei muito da exposição sobre a vida de Luiz Gonzaga. Isso tudo fora do grande parque.

Consegui assistir uma boa parte do Show de Flávio José, depois da derrota para a Noruega, soube inclusive que seu show teve um corte de meia hora para não atrapalhar o show de Pablo, na modalidade brega. Flávio canta muito bonito, mas notei uma certa tristeza em seu olhar, no timbre de sua voz, talvez por saber que vários dos seus parceiros foram excluídos do palco principal.

Pernambuco, Paraíba, Piauí,
Ceará, Rio Grande do Norte, Alagoas, Sergipe, Bahia e Maranhão... Capitais e grandes centros interioranos podem está ajudando a destruir a verdadeira tradição junina do Nordeste. Falo da exclusão de artistas como: Alcimar Monteiro, Santana, Elba Ramalho, Flávio José, Jorge de Altinho, Capilé, João Gomes, Targino, Alceu Valença e, muitos
outros, que estão sendo excluídos e principalmente aqueles que já fizeram críticas abertamente, ficam de fora.p

Quando uma tradição material e simbólica precisa de uma Lei para se sustentar, podem ter certeza que estará morrendo. Festa Junina se sustenta na força e na tradição do seu povo e o ideal é que os prefeitos, governadores e políticos não atrapalhem. Mas, pelo o que a gente tem visto é justamente o contrário. Venderam esses eventos a empresas e patrocinadores que não respeitam nossa cultura.

Observem que a questão não é o maior ou o melhor São João do mundo. A questão é o respeito e garantia de que nossa cultura e nossos artistas sejam valorizados, estejam recebendo com dignidade. Não podemos aceitar que um trio de forró, que passa os 30 dias de festa, tocando três ou quatro horas por noite, para ao final, recebe 1.200 reais por noite para três.

Pois quando um cantor sertanejo vem, canta uma hora e meia, as vezes embriagado e sai da festa com 1,5 (Hum milhão e meio no bolso) e, ainda sai falando mal do nordeste, das comidas e das pessoas. Isso aconteceu em quase todos os grandes palcos do Nordeste e até em pequenas cidades, como foi o caso de Belo Jardim em Pernambuco ou em Natal/RN, entre dezenas de outros.

Eu sempre fui desconfiado de tudo que quer ser grande demais, é o maior cuscuz, o maior bolo, a maior quadrilha, o maior São João, a maior cidade e nessa mania de grandeza, as vezes se esquecem de atenção com as verbas públicas e a falta de cuidado com o povo e as suas necessidades essenciais.

Esse foi o balanço que fiz das festas juninas de 2026, o que vi na prática foi um pavilhão de bets e outras marcas. Adeus tradição, independente de lei e de vontade política. O dinheiro público escorrendo pelo ralo, mas a propaganda mesmo é das marcas de refrigerante, cerveja, bets e bigtcs. Esse é um resumo de câncer e vício fantasiados de festejo junino.

*Por Belarmino Mariano. Imagem do Blog do Dércio e Blog cgretalhos. Memórias do parque do povo e Blog Caruaru Agora.

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Você Sabia que o Abaporu é da Argentina?

Por Belarmino Mariano*

Não sou crítico de artes, nem tão pouco algum conhecedor de obras, apenas um curioso, um pitaqueiro e gosto de relacionar absurdos que passam pela minha cabeça pequena e de "paraíba nordestino". É assim que os lá de baixo, com seus preconceitos de lugares, gostam de nos chamar?

Pesquisando sobre as copas suspeitas da Argentina (1978, 1986 e 2022), independente das teorias conspiratórias, descobri que o quadro original "Abaporu" se encontra na Argentina. Foi comprado por cerca de US$ 1 milhão e atualmente é avaliado em cerca de por US$ 40 milhões de dólares ou R$ 200 milhões de reais.

Hoje de manhã vi no noticiário que Eduardo Bolsonaro, condenado no Brasil e fugitivo nos EUA, disse em live que o presidente da Argentina Javier Milei virá ao Brasil dia 25 de julho para declarar apoio a campanha de Flávio Bolsonaro (PL) para presidente do Brasil e, também pretende se encontrar com o ex-presidente Jair Bolsonaro, em prisão domiciliar. Será que irá pedir permissão ao ministro Alexandre de Moraes (STF)?

Fiquei com a orelha coçando, pois a Argentina de Milei, vem dando apoio a vários grupos e governos de extrema direita na América Latina, mesmo com o seu país vivendo sua pior crise política e econômica da história recente e seu completo viralatismo ao governo de Donald Trump, tipo: "Vai meu cachorrinho a sua dona está mandando!" (Kelly Key).

Mas isso não é problema, pois o excêntrico Milei, já conversa até com espírito ou alma do seu cachorro morto e enterrado. Mas o que tudo isso tem haver com o Aboporu de Tarsila do Amaral?

Abaporu! Adoro essa obra, acho magnífica e confesso em minha pouca cultura que não sabia que o Abaporu, símbolo do canibalismo Tupi, havia sido comprada e por mais de 30 anos é da Argentina.

A Obra Abaporu de Tarsila do Amaral (1928)

De acordo com Gomes (2026), em as aventuras na história, o Abaporu se encontra prestes a completar um século e se tornou o ponto chave para o "movimiento antropofagista" e mordenista das primeras décadas  do século XX.

Dentro os vocábulos tupis de tradição oral, Abaporu significa uma mistura de aba (homem), pora (gente) e ú (comer). Quando interpretamos para o português brasileiro, ganha o sentido de "homem que come gente". Em espanhol ou castelhano: "hombre que se come a la gente". Será que na interpretação da artista modernista Tarsila do Amaral e do poeta Oswald de Andrade:  "homem antropófago" ganhou o mesmo sentido para los hermanos?

De acordo com Aidar (s/d), no Abaporu retrata uma figura humana sentada numa posição pensativa em uma paisagem árida e ensolarada. Entretanto, o que se sobressai na obra é justamente a ênfase dada ao tamanho agigantado dos membros, em detrimento do tamanho inferiorizado da cabeça.

Se na cabeça residem os pensamentos, sentimentos e desejos. O pensamento, a memória, a ideia, a inteligência e as vontades humanas. Tarsila talvez estivesse nos alertando sobre ressentimentos humanos que, em muitos momentos, pensam pouco, ao ponto de a espécie querer se alimentar de si própria, apenas como forma de tentar sobreviver as forças e selvagerias da própria natureza humana.

Em 1929, o marido de Tarsila, poeta Oswald de Andrade, publicou o "Manifesto Antropófago", que se tornou uma tendência dentro do movimento modernista brasileiro. Uma profunda reflexão sobre a existência e a experiência humana e suas contradições, para superarmos a nossa dependência colonialista.

Viagens intelectuais a parte, Oswald de Andrade fez uma profunda crítica a cultura estrangeira, despertando o interesse contra o colonialismo e pela ideia de um Brasil livre e soberano. Tarsila pintou o Abaporu na perspectiva do canibalismo, baseada em rituais indígenas Tupi, mas parece que o espírito nacional já havia sido consumido por interesses completamente externos, tanto é que a obra não foi valorizada na época 

De acordo com site da Fundação de Arte (Funarte), e Ministério da Cultura do Brasil, Tarsila do Amaral pintou o Abaporu como presente de aniversário ao marido Oswald de Andrade. Infelizmente, esse homem a traiu e, com o fim do casamento, ele vendeu a obra a um colecionador brasileiro, que a revendeu a outro e, ao final, o Abaporu foi parar na casa de leilões Christie's, em Nova York (EUA), sendo arrebatada por cerca de US$ 1,3 milhão.

Tarsila do Amaral faleceu em 1973 e sua obra foi leiloada em 1995, por mais de US$ 1,3 milhões de dólares, foi comprada pelo bilionário e colecionador argentino Eduardo Costantini de origem italiana. Atualmente o quadro está exposto no Museu de Arte Latino-Americano de Buenos Aires (MALBA), Museu criado pelo próprio Constatini.

A Argentina possuí uma das mais importantes obras de uma brasileira. Isso mesmo, o Abaporu é dos argentinos.  Se o Abaporu não foi valorizado por aqui, os Argentinos o quiseram e hoje possuem um pequeno tesouro. Nessa transação, talvez esteja projetada a cabeça pequena dos que "devoram a si próprios" em uma antropofagia reversa, em que, vestidos de falsos patriotas, querem entregar as coisas raras do nosso país aos estrangeiros, como se não tivesse nenhum valor.

Hoje em dia, mesmo não estando a venda, a obra Abaporu é avaliada entre US$ 40 milhões e US$ 50 milhões. Cerca de  R$ 200 milhões e R$ 250 milhões de reais. Isso mesmo, um dos símbolos críticos que alinentou milhares de intelectuais a superar os limites culturais, políticos e socioeconômicos do Brasil e um original em domínio dos argentinos.

Como Tarsila do Amaral fez estudos de Bellas artes na Espanha, e também acompanhou Oswald Andrade a Fraça,certamente visitou as obras de Rodin e pode ter sido influenciada pela escultura "O Pensador" (Le Penseur), obra de bronze, criada pelo artista francês Auguste Rodin (1880/1904). 


De acordo com Nehr (s/d), existem cerca de 27 copias em tamanho original de "o pensador" e uma delas se encontra na Praça do Congresso de Buenos Aires, capital argentina. Parece que os Argentinos estão bem em seus investimentos culturais, independente de ser original ou cópia.

Talvez seja apenas uma viagem de minha cabeça pequena, mas o Abaporu e "o Pensador" de Rodin se encontrarem no território argentino, no centro de Buenos Aires, diz alguma coisa sobre arte e poder. Sobre a valorização ou a desvalorização de coisas belas como a arte.

Como afirma o cantor, compositor e antropofagista Caetano Veloso: "da força da grana que ergue e destrói coisas belas", crítica ao poder do capital financeiro sobre a paisagem e a cultura da metrópole paulistana. Os empresários da Faria Lima que nos contem essa história.

Mas voltando aos humanos reflexivos de Tarsila e Rodin, ambos são homens sentados em  pedras. O Abaporu, pintura a óleo sobre tela, se encontra diante de um cenário de clima seminárido e de um sol escaldante. A desproporção proposital e o gigantismo dos seus membros inferiores em relação ao cérebro diminutivo, embaçam a realidade nos obrigam a forçar à mente, comprimida pela caixa craniana.

"O Pensador de Rodin, obra escultural em bronze, de acordo com o próprio Auguste Rodin, foi construído para ficar na "Porta do Inferno", sendo a representação do próprio Dante Alighieri, contemplando os círculos do inferno descritos na obra "A Divina Comédia", fiel representação do sofrimento da humanidade em seus conflitos.

Na atualidade uma cópia fiel de "o Pensador" de Rodin se encontra na porta do famigerado Congresso da Argentina, local com uma maioria de deputados da extrema direita, inimigos do povo argentino e a 6 km de distância do Museu onde está o Abaporu que era de Tarsila e do Brasil.

Agora quero saber quanto vai custar essa vinda e esse apoio do presidente argentino Javier Milei para o lançamento do nome de Flávio Bolsonaro (PL), para presidente do Brasil? Será que já foram transferidos alguns dos R$: 134 milhões de reais do filme Dark Horse (O Azarão), esse drama biográfico, sobre um golpista que se apresentou como o mito salvador da pátria, e que segue com os filhos bolsonarentos, fazendo acordos estrangeiros espúrios e tramando contra a soberania brasileira?

Javier Milei é o amiguinho de Trump e dos Bolsonarentos. Ele colocou a Argentina na pior recessão do país e o povo de lá está sendo massacrado pelos baixos salários, desemprego e inflação galopante. O Flávio daqui, quer adotar a mesma política do Milei, mas todo e qualquer apoio entre os extremistas da direita, tem um custo muito elevado.

Se a Polícia Federal (PF) brasileira seguir os passos labirinticos do dinheiro, do Daniel Vorcaro, repassados para o Flávio e o Eduardo Bolsonaro, quem sabe, poderá encontrar alguns milhões em território de "los hermanos" do Milei?

*Por Belarmino Mariano. Imagens das redes sociais e uma pitada de teoria da conspiração para o estado da arte. 

Fontes:

https://www.gov.br/funarte/pt-br/assuntos/noticias/todas-noticias/voce-conhece-o-abaporu

AIDAR, Laura. Abaporu: pintura de Tarsila do Amaral. Disponível em - 
https://www.todamateria.com.br/abaporu/

NEHR, Laura. O Pensador de Rodin no mundo, versoes autenticas ou cópias? Disponível em - 
https://lauranehr.com/o-pensador-de-rodin-no-mundo-versoes-autenticas-ou-copias/

GOMES, Giovanna. Tarsila do Amaral, a artista que pintou o ‘Abaporu’, dando origem ao Movimento Antropofágico (2026). Disponível em -https://aventurasnahistoria.com.br/noticias/historia-hoje/tarsila-do-amaral-a-artista-que-pintou-o-abaporu-dando-origem-ao-movimento-antropofagico.phtml

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Meus Monstros

Por Belarmino Mariano*

Ainda no útero da minha avó paterna, meu pai chorou e todos ouviram esse choro de um sertanejo que ainda nem havia nascido, mas já estava em sua caverna uterina, testeando a escuridão e se sentindo preso e sob a pressão de um frágil corpo humano.

Minha avó paterna morreu no parto do meu pai e ele cresceu sem o amor de sua mãe. Contava que foi criado pelas tias e primas mais velhas. Nos sertões do Cariri paraibano e nos limites entre a Paraíba e Pernambuco ele se criou, entre serras e vales como o rio Paraíba e Pajeú se tornou menino, jovem, adulto e velho.

Vida dura, trabalho pesado, roçados e gados dos senhores donos das terras e tudo por lá. Meu pai se tornou vaqueiro e agricultor. Um jovem magro e de pele queimada pelo sol, tinha a coragem dos poucos que, ao se embrenhar pela caatinga braba, em busca de reses desgarradas, lhe tornaram um homem valente.

Mas como ele mesmo dizia, nunca gostou de confusão. Era um moço calmo igual as vacas leiteiras do senhor dono das terras e dos gados. Mas confessava que já tinha entrado em briga por causa das morenas dos lugares por onde trabalhou.

Ele contava que foi vaqueiro de muitos senhores e montado em uma burra pega, cortava aquele Sertão nordestino sempre, levando e trazendo boiadas inteiras, dormindo no mato e curando bicheiras ou sacrificando vacas que eram mordidas por jararaca ou cascavel.

Desde muito jovem, meu pai lutava contra uma asma reticente, "puxado no peito", seguido por uma falta de ar nos pulmões, que lhe nocauteava sem piedade. Talvez esse fosse seu maior monstro. 

Não sabia explicar, mas parecia uma doença umbilical, ainda das entranhas maternas e do sufoco da hora do parto que sacrificou a própria mãe. Não existia cura e na agonia dos dias tinha que conviver com as crises de asma, como que carregava um castigo.

Ele fumava fumo de rolo de Arapiraca e descobriu entre os remédios do mato, que a flor de zabumba roxa (chamada de trombeta-de-anjo), se misturada ao fumo, aliviava as crises dos brônquios. 

Essa planta é extremamente tóxica e se ingerida é capaz de matar uma pessoa. Por tanto, em nossa casa, o pé de zabumba roxa era considerado uma planta sagrada e proibida. Ninguém deveria mexer naquela planta. Só meu pai poderia colher as flores muchas, que sempre botava para secar em cima do telhado e em casa, ele a guardava a sete chaves.

Meu pai falava enquanto dormia, tresvaliava, aboiva e cantava em versos de cordel, como se estivesse acordado. Ele parecia que entrava em transe e quando éramos crianças, ficávamos a beira de sua cama, tentando conversar com ele, lhe perguntando coisas e confesso que as vezes era assustador.

No outro dia, diante de uma xícara de café e um cuscuz com carne seca, ele não lembrava de nada do que havia sonhado. Minha mãe dizia que bera o efeito da fumaça da zabumba entrando em sua mente e confundindo as suas ideias. Acho que meu pai era psicodélico demais.

Um homem bruto, analfabeto e criado na labuta, na dureza do trabalho pesado, quando era puxado para conversar, era um contador de história, versado na poesia e na cantoria de viola. Só ouvia uma vez e decorava tudo. Seus contos e casos, misturava, fantasia, ficção e realidade de tal forma que a gente se arrepiava todo e na hora de dormir, a gente se enrolava da cabeça aos pés.

As vezes fico pensando se todos os monstros que existiam dentro do meu pai, também existem dentro de mim? Uma vez, peguei uma piola do seu cigarro de flor de zabumba e fumo de rolo e dei umas boas tragadas. Rapaz, confesso que, quase vomitava até as tripas. Passei mal e me deu uma tontura monstra. Para nunca mais.

Quando me casei, descobri por minha mulher assustada, me dizendo que enquanto eu dormia, tenha pesadelos, me mexia, dava morrus e pontapés, como se estivesse em uma batalha de vida ou morte. Ela me contou que eu falava em uma língua embolorada, como se estivesse no meio de uma situação de conflito.

Meus sonhos, meus pensamentos, sentimentos e emoções. Meus monstros e tudo o que não sabemos explicar direito, a artista Avajinying pinta como quem sopra monstros de dentro das garrafas ou lâmpadas de gênios encantados. 

*Por Belarmino Mariano. Imagem de Avajinying.
Fonte da imagem: https://www.instagram.com/reel/C95LZ13Io3W/?igsh=eHI1bXN6MjRjenlp

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Não Aposte!

Por Belarmino Mariano*

Não ganho nada com isso, mas não quero que você perca. "Acorde levante e lute", pois essas pragas de pets viciam, são jogos de azar, controlados por IA e você sempre sairá perdendo. 

Os jogadores de futebol como Neymar e outros, ganham milhões e nunca perdem, mas é você que paga aos famosos e veja que são milhões. Enquanto isso, as bets sonegam impostos e ganham trilhões.

Outra coisa importante, às vezes você ganha uma "laminha", mas precisa meditar que essa merreca que você ganhou é porque outros idiotas viciados perderam. São jogos combinados, manipulados e você é induzido a acreditar em sorte, na oportunidade e na realização de seus sonhos.

As bets nunca perdem nada, pois controlam tudo através de bigtechs e avançados programas de computador. Veja essa copa do mundo a FIFA construiu um esquema de atravessadores para os ingressos. Um ingresso já está chegando a custar, mas de $: 3 mil dólares. Ou seja, só ricos estão entrando nos estádios.

Enquanto isso, lhe vendem a ideia de fazer uma fézinha, de arriscar, de acreditar na sorte. Nas são apenas peças de propaganda, todas construidas com base em teorias psicológicas, manipulação de estrelas do futebol, influences muito bem pagos com o seu dinheirinho suado.

Bilhões de pessoas, no mundo todo, estão viciadas. Esse esquema de bets, comprovadamente virou uma pandemia, uma doença devastadora. Tenho amigos do meu mundinho, que já perderam, moto, carro, outros bens e até mesmo seus casamentos.

O Brasil é um país de vícios, mas esse das bets, veio muito assemelhado a guerra do ópio na China do Século XIX. Aqui no Brasil muitas pessoas se viciaram em redes sociais e em telas. São viciadas em café, em bebidas, em drogas e agora em bets. 

As bets são constantes, 24 horas, se domiya domingo. Você se cadastra em uma plataforma digital, atrela ao banco digital (Bigtech) e começa a fazer apostas. 0,50 centavos, 1,00 real, 10 reais, 100 reais e em um mês, você compromete todo seu orçamento.

A transmissão da Copa está custando bilhões e grande parte dessa transmissão é paga pelas bets, que usam seu dinheiro para pagar. Por isso essa gigante propaganda de bets. Mas ao final de cada jogo, foi você que pagou a conta. Você e bilhões de jogadores. Enquanto isso, grandes empresários donos das bets, que não produziram nada de saudável, acumularam o equivalente ao PIB de países inteiros.

As bets, apesar de parecer diversão, festa, brincadeira, na verdade são atividades viciantes, destruindo orçamentos, endividando e desestruturando famílias inteiras. O pior destroem a sua saúde mental. PARE COM BETS HOJE MESMO! 

Por Belarmino Mariano. Imagens das redes sociais. Obs. A imagem não corresponde ao tema, pois a Meta ganha muito com impulsos das bets e sempre bloqueia artigos críticos.

Pessoas negras representam 86,3% dos mortos pela Polícia em 9 Estados do Brasil

Texto: Redação | Alma Preta Jornalismo
📸Cris Faga/NurPhoto via AFP*


A Rede de Observatórios da Segurança lançou nesta quarta-feira (1) a sétima edição anual do relatório “Pele Alvo: entre racismo e letalidade, o amanhã”, estudo que monitora dados de letalidade policial fornecidos via Lei de Acesso à Informação (LAI) pelas secretarias de segurança de nove estados para revelar as desigualdades cometidas contra a população negra.

Em análise dos dados de 2025, o estudo identificou um aumento de 6,4% na letalidade policial (4.330 mortes somadas nos nove estados monitorados) em relação ao ano anterior, além de escancarar a centralidade do racismo estrutural na atuação das forças estatais. Considerando apenas os dados com informações de raça/cor, 86,3% das vítimas (3.104 pessoas) eram negras.

O perfil das vítimas da letalidade policial também revela um recorte geracional, territorial e de gênero bastante definido: jovens de até 29 anos representam 64,8% do total de mortos (2.804 vítimas), vivem majoritariamente em periferias e favelas e, em sua imensa maioria, são homens.

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*Texto: Redação | Alma Preta Jornalismo
📸Cris Faga/NurPhoto via AFP

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terça-feira, 30 de junho de 2026

O elefante que a gente não doma

Por Alessandra Del’Agnese

Tem uma pintura tibetana, dessas que a gente olha e acha bonita, mas não entende direito. Parece complicada demais pra ser sobre a gente, mas é. Mostra um monge subindo uma montanha em círculos, puxando um elefante por uma corda. No começo, o bicho é preto, enorme, descontrolado, derrubando tudo que encontra. Lá no topo, ele aparece branco, calmo, quase transparente e o monge nem segura mais a corda. Os dois vão juntos, leves, subindo em direção a um céu cheio de nuvens douradas.

É uma metáfora budista sobre a mente. O elefante é você. Sua cabeça. Seus pensamentos. Aquele macaco que aparece pulando em cima dele, puxando pra um lado, distraindo, fazendo bagunça esse é o seu desejo de ser visto. De ser comentado. De ser curtido. Um macaquinho sem freio que mora dentro de cada um de nós e que hoje tem nome de aplicativo: notificação.

A gente passou a pedir aprovação como quem pede ar. Posta uma foto e fica encarando a tela, esperando o número subir como se aquilo fosse um atestado de existência. Cadê o like? Cadê o comentário? Alguém pra confirmar que eu estou aqui, que eu importo, que o que eu fiz hoje realmente aconteceu? Chegamos num ponto em que precisamos que estranhos validem nosso café da manhã. E nem percebemos mais o tamanho do ridículo.

No desenho, o elefante escuro do começo é isso: a mente desgovernada, correndo atrás de prazer rápido, de reconhecimento, de barulho. E a trilha não é fácil. Tem fogo. Tem precipício. Tem queda. Cada curva é uma recaída. Você jura que vai largar o celular, e dez minutos depois está ali de novo, contando corações vermelhos como se fossem votos de amor.

Mas ali, naquela pintura, ninguém prometeu fama. Prometeram silêncio. Prometeram que, se você parar de correr atrás de plateia, sobra espaço pra outra coisa mais sólida, mais sua. Paz, presença, sei lá. O monge não está performando. Não tem holofote, não tem story, não tem ninguém aplaudindo a subida dele. E é justamente por isso que ele sobe.

A gente trocou a montanha pela vitrine. Trocou o elefante de dentro pelo elefante de fora aquele que a gente exibe, filtra, edita, legendas, hashtags. E esqueceu que o trabalho de verdade nunca foi mostrar o bicho domado pros outros aplaudirem. Era domá-lo em silêncio. Sem plateia. Sem prêmio. Sem like.

No fim da pintura, o elefante sobe sozinho, quase invisível, dissolvido nas nuvens. Ninguém bateu palmas. Não tinha ninguém olhando. Só o caminho percorrido, finalmente, sem precisar que alguém visse.

Imagens das redes sociais.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

INTOLERÂNCIA RELIGIOSA NÃO É OPINIÃO. É VIOLAÇÃO DE DIREITOS.

.  Por Jornal Grande Axé*

Mais uma vez, um terreiro de matriz africana se torna alvo de uma ação que ultrapassa os limites da fiscalização e atinge diretamente a liberdade religiosa.

 A apreensão de tambores, objetos sagrados e instrumentos de culto não representa apenas a retirada de bens materiais. É um ataque à história, à ancestralidade e à identidade de um povo que, há séculos, luta para exercer sua fé com dignidade.

Enquanto igrejas e templos de outras religiões são, em regra, tratados com respeito às suas práticas e símbolos sagrados, os terreiros continuam enfrentando abordagens marcadas pelo preconceito, pela falta de preparo e, muitas vezes, pela intolerância. Essa desigualdade precisa ser denunciada.

O Brasil é um Estado laico. A Constituição Federal garante a liberdade de crença e protege os locais de culto e suas liturgias. Quando um terreiro é desrespeitado por causa de sua religião, não é apenas uma casa que sofre: é toda uma comunidade que vê seus direitos fundamentais ameaçados.

Não se trata de pedir privilégios. Trata-se de exigir o que a lei já garante: respeito, igualdade e liberdade para todas as religiões.

É urgente que as forças de segurança recebam formação adequada sobre diversidade religiosa e direitos humanos, para que ações policiais ocorram dentro da legalidade, sem reproduzir preconceitos históricos contra as religiões de matrizes africanas.

O silêncio fortalece a intolerância. A denúncia fortalece a democracia.

Respeitar o tambor é respeitar a Constituição. Respeitar o terreiro é respeitar a liberdade. Intolerância religiosa é crime e precisa ser combatida com firmeza, justiça e união.

*Jornal Grande Axé.