sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Mulheres, quem muito escolhe, sempre fica com o melhor

Por Belarmino Mariano*

Quem muito escolhe, sempre fica com o melhor! Nem sempre! Gritou Dona Eulália Aparecida Galvão, mulher experiente e vívida. Eu mesmo, fiquei entre o traste do pai dos meus filhos e outros cinco. Minhas melhores amigas, sem muita frescura, se deram bem melhor que eu.

Nem mesmo Amélia, que era uma "mulher de verdade", real, mas idealizada por
Ataulfo Alves e Mário Lago, teve tanta certeza em suas escolhas. Entre uma das várias mulheres que poderia ser, preferiu ser submissa, dedicada e sem vaidades, escolheu ser  exclusivamente recatada e do lar.

Sempre achei que Amélia faria uma excelente escolha e com tanta beleza, com tantos atributos de uma "mulher de verdade", escolheu passar fome ao lado do amado que nunca teve nada, mas que, se tivesse, certamente viraria as noites em serestas, bares e boêmia.

Escolha certa foi de Zeli Cordeiro (Zeni), que  sem muito arrodeio, escolheu Mário Lagos. Era uma mulher de esquerda, avançada e moderna. Logo cedo se envolveu com o Comunismo, com as lutas sociais e foram felizes, sem submissão machista. É verdade que passaram perrengues com a perseguição política e prisões de Lago, mas nada tem haver com escolher demais.

Não podemos confundir a doméstica e servil Amélia dos Santos, da música de Ataulfo e Lago, com a Imperatriz Amélia de Leuchtenberg (Franco-Bávara) que foi a segunda esposa de Dom Pedro I e se tornou a imperatriz consorte do Brasil por três anos. Essa Amélia, apesar de ter se tornado imperatriz, ficou viúva muito cedo e, depois de 5 anos de casada, com a morte de D. Pedro, ela se vestiu em vestidos pretos e entrou em um luto profundo, sem nunca mais querer saber de homens.

Amélia dos Santos, queria e poderia ter sido um monte de coisas, escolheu tanto, mas acabou se tornando a doméstica de Aracy de Almeida. Não que ser doméstica seja um problema de escolhas. Na maioria dos casos, não houve oportunidade para outros degraus e a aceitação cativa nos prende para sempre.

Dona Eulália Galvão ainda disse que ficava pensando na esposa do profeta Malaquias, que nem mesmo o nome e origem são citados no livro sagrado. Teve tantas escolhas, tantos outros guerreiros, pescadores ou camponeses a lhe cobiçar, mas nem o direito de escolha lhe permitiram fazer. 

Ela foi "jogada na cova dos leões" e seu varão, que tantas profecias fez, nenhuma vez citou seu nome. Para aquele o varão Malaquias era uma serva do marido, "uma Amélia dos tempos da Bíblia" e foi completamente apagada da história do povo escolhido por Deus, como se as mulheres não tivessem nenhuma importância, naquele reino, onde poderíam serem apedrejadas até a morte.

Não sabemos quem escolheu quem?!? Mas ficamos a imaginar a Lindaura Martins, esposa oficial de Noel Rosa, uma mulher do lar, sabendo que ele amava outra, ou era profundamente apaixonado por Ceci, sua musa inspiradora. Apesar de outros namoros e romances, Noel Rosa deixou um grande legado de amor, paixão e sofrência romântica por Ceci, que sempre foi tema para suas composições.

Juraci Coreia (Ceci) era feliz como dançarina de Cabaré, vivia as noites cariocas e a boemia dos homens, bares, tabagismo e bebidas alcoólicas. Para a sociedade da época, ela era  uma libertina, o avesso de Amélia ou Lindaura e foi quem dilacerou o coração de Noel. 

Entre sua ardente paixão, dor e sofrimento talvez tenha sido o poeta, cantor e compositor que escolheu retratar uma mulher brasileira com tanta paixão. Mas a música popular brasileira é cheia de outras musas entre elas as morenas cariocas, baianas ou tropicanas.

Músicas de Noel como:  "Último Desejo", "Pra que Mentir" e "Dama do Cabaré". Entre tantas, estão nos álbuns de dezenas de intérpretes e dão  ao Brasil o legado de tantas composições em que as mulheres são grandes musas inspiradoras, mas em muitos casos, apenas musas, pois na realidade, suas escolhas quase sempre lhes colocam nas mãos de homens brutos, agressores e violentos.

Como diz o compositor Luiz Gonzaga Júnior (Gonzaguinha), "Matilda, hô Matilda, o bicho ruim quando não tem do que dá cabo, primeiro morde o rabo e depois vai se comer (...)". Poderia ter escolhido outros poemas de amor de Gonzaguinha, como "Sangrando", "Lindo Lago do Amor" e "Espere Por Mim, Morena",  pois neles a paixão, a entrega e a beleza das relações humanas são muito mais intensas.

Mas a ideia aqui foi apenas alertar as mulheres para suas melhores escolhas, pois muitos homens se enquadram no "universo do bicho ruim, perverso e maligno". Em especial, aquele que se veste de santo e nunca se coloca no lugar da outra. Diferente de Chico César, que mesmo mal interpretado, nos alertou que "sabe como pisar no coração de uma mulher, pois já foi mulher", já esteve nesse lugar de amar profundo, de se cortar por dentro e sangrar de paixão, diante de escolhas, muitas vezes frustradas.

Chico César ainda assim, nos diz para irmos "vestidos de amor, para o amor encontrar". Para nos "vestirmos de utopia e sairmos com as nossas namoradas, mesmo com o riscos de baques atrapalhados".

*Por Belarmino Mariano. Quando março chegar. Imagem das redes sociais.

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