sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Caminhada

.  Por Belarmino Mariano*

Além do silêncio e da calmaria, o que me impressiona aqui é não saber onde estou e tenho uma ligeira sensação de que me encontro em lugar nenhum. Diria mais, se trata de um lugarejo pequeno e a paisagem urbana é de povoado ou distrito isolado no meio do nada. Pelo olhar geográfico, se encontra entre cinco ou seis ruas, no entorno de uma pedra grande.

Não existe uma periferia urbana, pois tudo se resume ao centro histórico habitável, em que, bastam de 20 a 30 metros da pedra grande, para se ver o lado de fora daquele lugarejo encantado.

Na verdade, a pedra nem é tão grande assim, se trata de um lageado, circundado por planuras, em meio a um emaranhado de serras do planalto cristalino. Nas áreas de terra, dos poucos arruados, foram feitos calçamentos irregulares de fragmentos rochosos.

Um trabalho de suor e sonho dos poucos moradores e fundadores pioneiros. Como mencionei, um cantinho tranquilo e calmo, onde é possível ouvir o sumbido dos ventos, orquestrando uma cantilena suave e agradável de som e brisa fria, típicos de regiões com acidentes geográficos.

Lá não existe eletricidade instalada, mas, ao lado da estrada de acesso ao povoado, existe uma linda lagoa de águas cristalinas que abastece aquela comunidade com suficiência. Também é um lago no meio do nada, uma formação natural típica do relevo acidentado e do côncavo e convexo por entre as serras.

Certamente é um reservatório de águas das chuvas, que caem e escorrem para aquela baixada, através de um paredão rochoso e outras encostas cristalinas de uma geomorfologia fantástica.

O clima ameno em meio a tropicalismo regional, nos faz lembrar da ideia de refúgio ecológico em meio aos ecossistemas de planaltos continentais, sem uma exatidão altimétrica, as indicações geográficas apontam para médias de 550 a 600 metros em relação ao nível do mar.

Os moradores daquela redondeza são todos negroides de origens africanas e, conta a lenda que escaparam de um navio negreiro que afundou na costa do nordeste brasileiro a cerca de 300 anos, quando se chocou contra rochedos marinhos das terras da nação Potiguara.

Dos destroços da embarcação, salvaram algumas ferragens como foices, machados e facas que eram usadas para escambo com o Potiguara. Entre os mortos e feridos, não restou quase ninguém, em especial da tripulação de homens brancos que comandavam aquela nau afundada pelos traiçoeiros arrecifes de corais.

Dos pioneiros, apenas um leva de 08 negros jovens e 03 mulheres negras que, no desastre fatal, juntaram tudo o que podiam e ao amanhecer, se embrenharam na mata virgem, se afastando ao máximo da costa. Não sabiam onde estavam e viram ao longe um grande grupo de guerreiros locais se aproximando do que restava daquele naufrágio.

Eles estavam se preparando para um motin e já vinham movimentado os braços e pernas para se libertarem das amarras. Quando cerca de 15 ou 20 negros conseguiram se liberar das amarras, entraram em confronto corporal contra tripulantes e na escuridão da noite, aquele conflito gerou a perda do controle da embarcação.

Isso era o que contavam os mais velhos. Eles chegaram aqui como escravizados, mas o mar os libertou, antes mesmo de atracarem na praia. Como fugiram assombrados com o desastre e a imensidão de terra e mar, não conseguiram contar os mortos, mas a tripulação era de aproximadamente uns 180 homens e mulheres amarradas em cordas e no fundo do tumbeiro, era quase impossível escapar.

Não sabem precisar o ano e nem o local exato, nas pelas histórias dos velhos, viajaram mais de 15 ou vinte dias, se esgueirando por entre as margens do grande rio curimataú (do tupi kurimata-úna), até chegarem as serras com pedras de bocas e barro avermelhado. Mas ainda seguiram por mais alguns dias até se instalarem naquele esconderijo encantado.

Eles dizem que foram prisioneiros da escravidão, pois seus antepassados ficaram mortos no fundo do mar e na África mãe. Aqui na terra firme, por entre as serras e caatinga que seca no verão e verdeja com as chuvas, eles se acosturam e vivem o silêncio e a calmaria dos diasce noites, mas ainda se assombram com o desconhecido.

Quando cheguei a esse lugar estava perdido, caminhava por trilhas incertas e havia começado uma grande chuva, com relâmpago e trovão. Eles me acolheram e, mesmo desconfiados, me deram guarida, um café quentinho com cuscuz e carne cozida. Juro que, com pingos fortes de chuva nos telhados e nas pedras, nem queria acordar.

*Por Belarmino Mariano. Da série Sonhos.

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