No Brasil de 1976, em pleno período da Ditadura Militar (1964-1985), estágio ou exercício do Ato Institucional Número 5 (AI-5), em vigor desde 1968, endurecia ainda mais a ditadura. Mesmo assim, o poeta e compositor Belchior Antonio Carlos, entregou para seu público, a composição "sujeito de sorte".
Muitos podem até achar que se trate de uma metáfora simples sobre a morte e até certo ponto é, mas em uma ditadura violenta e sanguinária, que perseguia, prendia, torturava até a morte e depois desaparecia com o corpo, para continuar torturando o psicólogo da família, a Música Popular Brasileira (MPB) não era apenas linguagem metafórica.
Mas vamos à poesia dessa composição, que parece até com uma conversa incidental de barzinho, acompanhada de um velho violão e de um cig4rr0 acesso em plena madrugada, conza e fria, enquanto a cachorra do f4sc1sm0 ladrava madrugada a dentro em pleno cio:
"... Presentemente, eu posso me
considerar um sujeito de sorte
porque apesar de muito moço
me sinto são, e salvo, e forte
… E tenho comigo pensado,
Deus é brasileiro e anda do meu lado e assim já não posso sofrer
no ano passado
… Tenho sangrado demais
tenho chorado pra cachorro
ano passado eu morri
Mas esse ano eu não morro...".
E a composição é basicamente isso, uma simples construção com três estrofes e como em um mantra budista, se repete por 15 vezes. Um recado curto, grosso e poético, certamente para os que achavam que tinham o poder e o direito de matar a sangue frio.
Daí a ideia de relacionar Belchior às operações matemáticas, como a regra de três ora simples, ora composta e também complexa. Não que tenha algo de formação acadêmica com física ou matemática, mas pelo fato de escrever contas poéticas com maestria de quem quer esconder até as coisas mais simples.
A biografia de Belchior (1946-2017), aponta para um cearense com muita erudição nas áreas de filosofia, línguas e artes. Apesar de não ter concluído nem um curso superior, foi aprovado em primeiro lugar para Medicina na UFC, em 1968 e cursou por quatro anos, até 1971, quando abandonou a faculdade de medicina para seguir a vida como poeta, compositor e cantor.
Mas vamos insistir nessa comparação do Belchior com a matemática em tempos de autoritarismo. No mundo da matemática existe a regra de três simples que consiste em uma forma de descobrir um valor a partir de outros três, divididos em pares relacionados cujos valores têm mesma grandeza e unidade. Assim, de cara, confesso que não entendi nada, mesmo assim, seguirei com essa operação.
O sujeito, a sociedade e o estado repressor se encontram nessa operação de vida e/ou morte e, nessa expressão aparece um sujeito sinistro identificado com o Agente (X), que pode ser identificado como aquele que ocupa o lugar de um dos três até que se chegue ao denominador comum e correto. Esse parece ser o X da questão.
Além da regra de três simples, existe também a regra de três composta. "Mas aí já são outros 500". Por enquanto vamos ao sujeito de sorte, no álbum Alucinação (Philips, 1976), já avisando que teve vários trechos censurados pela Dita-Dura.
Assim como as letras na matemática (B+A sobre 2X), para muitos, não faz sentido o cara morrer no ano passado, mas não morrer nesse ano. Em 1976, o Brasil completava 12 anos de chumbo grosso do Regime Autoritário. Belchior, que havia nascido em 1946, estava com 30 anos de idade, tempo considerado como a melhor idade de um homem. Mas aquele tempo perverso conspirava contra suas liberdades plenas.
E o X da questão era observar que seus amigos estavam sendo perseguidos, presos, torturados, desaparecidos ou mortos. Então, para ele, que no ano passado "escapou fedendo", morrer ou não morrer, parecia uma questão de sorte e, em um país profundamente "Cristão", Jesus Cristo só poderia ser brasileiro e parece que assistia tudo de cima do muro.
E como em uma regra de três simples, Belchior repetiu várias vezes, o que podemos considerar como a estrofe central: "… Tenho sangrado demais
tenho chorado pra cachorro,
ano passado eu morri
mas esse ano eu não morro...".
O (AI-5) entrou em vigor em 13 de dezembro de 1968, durante o governo do marechal Artur da Costa e Silva, aprofundando a repressão, fechando o Congresso Nacional e suspendendo as garantias constitucionais como o habeas corpus e a completa ruptura democrática. Com esse ato institucional, os militares estavam acima da lei e da ordem e tinham a sentença até para matar em plena luz do dia.
A regra era simples, duas ou três pessoas reunidas com um violão e cantando canções da América em um barzinho da periferia, poderiam ser considerados como comunistas subversivos, levados a força para alguma delegacia e depois transferidos para um dos porões da Ditadura Militar.
Pesquisas historiográficas sobre música popular brasileira (MPB), dão conta que o álbum Alucinação (Philips, 1976), de Belchior, sofreu várias censuras prévias e cortes em faixas específicas pelos censores da ditadura militar. Em especial nos trechos sobre "desaparecimentos" e "tempos estranhos" foram vetados, forçando Belchior a modificar letras para liberação, como ocorreu na música "Apenas um Rapaz Latino-Americano".
A própria música "Sujeito de Sorte" parece que foi completamente amputada, pois o estilo poético de Belchior era de grandes composições, profundamente detalhadas, com letras rebuscadas ao exemplo da
composição: "Velha Roupa Colorida" (1976), em que uma canção aparente simples e indetectável pela censura, consegue trazer para a realidade brasileira, uma operação metafórica e filosófica de um diálogo entre (Blackbird - O Corvo), do poeta Norte-Americano Allan Poe, em que, Belchior cria um diálogo literário com Luiz Gonzaga (Assum Preto) e sua condição degradante de prisioneiro que teve os olhos furados pelo seu criador.
"O Assum Preto", de Luiz Gonzaga, símbolo do sertão, preso na gaiola e com os olhos furados, a cegueira representa a realidade crua e a dor, a metáfora de sofrimento e perseguição que cantores e compositores passavam com a ditadura militar.
Daí a ideia central em ser obrigado a escrever composições com mensagens subliminares, confundindo os censores e obrigando o público a interpretação matemática da letra. O poeta e compositor era obrigado a arriscar a própria vida ao driblar a censura, se colocando na posição de o X daquela difícil operação, aparentemente simples, porém composta de agentes militares fortemente armados e prontos para atacar.
Como um compositor sensível, complexo, profundo, filosófico e crítico da realidade, certamente sofreu muito durante a ditadura militar, assim como muitos outros, ao exemplo do paraibano Geraldo Vandré que, três anos depois (1979), foi durante perseguido, preso, censurado e torturado pelo regime autoritário brasileiro, simplesmente por escrever "pra não dizer que não falei das flores", que ao longo dos anos "cinzas", se tornou o hino contra a repressão do regime militar.
Em 2026, estamos há dois anos dos 60 anos do AI-5. Enquanto isso, jovens e outros populares brasileiros continuam com dificuldade em matemática e vivem escutando muita música porcaria. Esse é o X da questão. Idiotizados pela grande mídia e Internet, se acham fodásticos do pedaço. Enquanto isso, golpistas, ditadores, n4z1s e corruptos continuam em diferentes esferas do poder, com apoio da grande mídia e livre acesso na internet, ameaçando nossa democracia e a soberania nacional em conluio com outros ditadores genocidas.
*Por Belarmino Mariano. Da Série Antes Que Seja Demais. Imagens das redes sociais.
Fonte: letras de Belchior. Canal Musicália (YouTube, 09/12/2016).
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