sexta-feira, 17 de julho de 2026

Balanço sobre os Festejos Juninos 2026 - da Paraíba ao Nordeste

.  Por Belarmino Mariano*

As imagens são faraônicas , são colossais e aos 43 anos de festas juninas, 2026 foi o ano, com as maiores polêmicas sobre muita interferência externa e descontentamento entre artistas locais e público em relação ao que já foi considerado "O Maior São João do Mundo."
Numa mistura de Copa do Mundo e festejos juninos de 2026, os brasileiros e em especial os nordestinos, ficaram quase todos divididos. Mas tiveram muitos que brincaram nas duas coisas. Assistir a copa e dançar forró.

Em alguns dos grandes palcos do forró, foram instalados telões para os poucos jogos do Brasil, seleção eliminada, antes mesmo de chegar às oitavas de finais.

Passada a derrota para a Noruega, onde o Brasil entregou a paçoca baratinho, nos restou fazer um balanço da tragédia dos festejos juninos em todos os Estados do Nordeste e mais especificamente na Paraíba.

Apesar das festas juninas serem comemoradas em todo o Brasil, é no Nordeste que ela acontece de verdade, mas parece que existe uma ação orquestrada para desmantelar esses eventos de maneira premeditada. E olha que o esforço é grande!

Nem estava mais querendo falar sobre festejos juninos, apesar de ter iniciado este artigo que certamente iria ficar sem publicação, diante de outros assuntos mais palpitantes, como as lambanças da extrema direita e o orçamento secreto, junto com o escândalo do Vorcaro e do Flávio Tarifação. 

Mas, depois que li no Portal ResumoPB que, os deputados estaduais Tova Cunha Lima e Camila Toscano, ambos saídos do PSDB e agora no MDB, conseguiram propor e aprovar um projeto de Lei que oficialmente tornou Campina Grande, como a cidade com o maior do mundo.

Isso mesmo, uma Lei foi criada com dinheiro público com salários dos deputados, assessores e verba de gabinete, para aprovação de leis sem nenhuma utilidade prática. Inclusive um São João feito com muita verba pública, sob administração de empresas privadas, inclusive com algumas de fora da Paraíba. Um São João cada vez mais descaracterizado, que sufoca pequenos comerciantes, artistas locais e regionais.

Cantores, compositores, bandas e trios de forró, todos os anos, reclamam que o São João de Campina Grande realmente é grande, mas perdeu a sua tradição e essência dos festejos juninos. Agora é um grande aglomerado de sertanejo, pagode, funk e outros "estilos modinhas", deixando o forró na última prateleira e, ainda humilhando os artistas locais e regionais.

Não estranhem o que vou dizer, mas noto que nos últimos 10 ou 15 anos, depois que o governo federal passou a investir e apoiar a cultura dos festejos juninos em parceria com governos estaduais e municipais, que passaram a receber milhões de incentivo ao Turismo, em especial nos últimos cinco anos, com grana de orçamento secreto e emendas impositivas. Muitos prefeitos, secretários de cultura e turismo passaram a vender para empresários privados, organização e ganhos econômicos desses grandes eventos. 

O dinheiro público, aos bilhões, parece que "cresceu o olho" de deputados, senadores, governadores e prefeitos em todos os lugares do Brasil. Nesses últimos anos, são bilhões que rapidamente viram pó e se transformaram em cachês milionários para um único cantor ou uma única banda.

Aí é onde começamos a observar que a tradição cultural perde o valor, e outros estilos, já consolidados nacionalmente, contratados pelos empresários que controlam os recursos passam a ocupar o lugar dos artistas locais e regionais.

O mesmo vale para grandes festas de rodeios do centro oeste, ou tradicionais festas de padroeiros, carnaval ou manifestações populares que 
passaram a vender, esses eventos que em sua maioria são pagos com dinheiro público.

Não é atoa que estamos acompanhando, grandes escândalos, envolvendo prefeitos, empresários e artistas, com contratos absurdos, em que fica clara a corrupção e o desvio de dinheiro público. 

Os maiores exemplos são de cantores sertanejos, com cachês milionários, nenhuma relação com forró, xaxado ou baião, mas abocanha sozinhos, milhões e milhões, muitas vezes de prefeituras pequenas como a de Belo Jardim (PE).

Mas escandalosa ainda é o caso de Campina Grande, Caruaru, Petrolina e outros grandes centros do interior nordestino, que nessa época, atraem milhões de brasileiros e milhões de turistas, que encantados pelas luzes, bandeiras, comidas típicas, bebedeiras e muitos shows, bem percebem a roubalheira que esta acontecendo por trás dos palcos.

Muita propaganda de bets, muita propaganda de marcas nacionais e a ressaca do dia seguinte precisa ser curada, pois são 30 dias de festas, quase que ininterruptas. É realmente espetacular, mas precisamos avaliar que existe um movimento armado para descaracterizar e desvalorizar completamente artistas locais e regionais e, isso não é de agora.

Estive no São João de Campina Grande e as atrações foram de Roberto Carlos, Marisa Monte, aos pagodeiros, funks e sertanejos. Marisa até se esforçou para cantar músicas de Luiz Gonzaga, levou um sanfoneiro e fez um show romântico e eclético para o dia Santo Antônio (festa dos namorados).

Agora imagina você ter que ficar bancando sertanejo e pagodeiro em pleno São João? Imagina os sertanejos ridicularizando a nossa cultura em pleno palco, desmarcando show na véspera e no dia da apresentação, rindo da cara dos prefeitos e da população, alguns inclusive embriagados.

Parece que a ideia é esculhambar, descaracterizar, criar ódio e raiva e provocar os nossos talentos. Uma geração inteira de cantores e compositores do forró nordestino, sendo excluídos, sendo humilhados, tendo seus shows cancelados, sem explicação.

O forrozeiro Flávio José, viu o Ministério Público da Bahia, fazer uma devassa sobre os seus cachês, que são até modestos, se comparados com os cantores sertanejos. Simplesmente ele teve seus shows cancelados. Assim como ele, dezenas de outros artistas nordestinos foram deixados de fora das grandes atrações juninas.

O forrozeiro Segal do Forró "o vaqueiro chorão". Fez uma crítica pesada aos organizadores do São João 2026. Ele começou questionando: "Por que o São João de 2026 foi o pior de todos os tempos?"

Segal não economizou e afirmou que: "Se ninguém fizer nada, vai acabar essa nossa tradição..." E não será por falta de recursos, mas a ideia é destruir parte da nossa identidade cultural e favorecer seus esquemas empresárias.

Volto a dizer que fui em Campina Grande e no Parque do Povo e não era mais o maior São João do mundo, era um festival de música sertaneja e outros gêneros de música, mas o forró passou longe. Até vi um trio de forró em uma pequena ilha, tocando para algumas dezenas de pessoas, vi outra ilha com menos gente ainda e gostei muito da exposição sobre a vida de Luiz Gonzaga. Isso tudo fora do grande parque.

Consegui assistir uma boa parte do Show de Flávio José, depois da derrota para a Noruega, soube inclusive que seu show teve um corte de meia hora para não atrapalhar o show de Pablo, na modalidade brega. Flávio canta muito bonito, mas notei uma certa tristeza em seu olhar, no timbre de sua voz, talvez por saber que vários dos seus parceiros foram excluídos do palco principal.

Pernambuco, Paraíba, Piauí,
Ceará, Rio Grande do Norte, Alagoas, Sergipe, Bahia e Maranhão... Capitais e grandes centros interioranos podem está ajudando a destruir a verdadeira tradição junina do Nordeste. Falo da exclusão de artistas como: Alcimar Monteiro, Santana, Elba Ramalho, Flávio José, Jorge de Altinho, Capilé, João Gomes, Targino, Alceu Valença e, muitos
outros, que estão sendo excluídos e principalmente aqueles que já fizeram críticas abertamente, ficam de fora.p

Quando uma tradição material e simbólica precisa de uma Lei para se sustentar, podem ter certeza que estará morrendo. Festa Junina se sustenta na força e na tradição do seu povo e o ideal é que os prefeitos, governadores e políticos não atrapalhem. Mas, pelo o que a gente tem visto é justamente o contrário. Venderam esses eventos a empresas e patrocinadores que não respeitam nossa cultura.

Observem que a questão não é o maior ou o melhor São João do mundo. A questão é o respeito e garantia de que nossa cultura e nossos artistas sejam valorizados, estejam recebendo com dignidade. Não podemos aceitar que um trio de forró, que passa os 30 dias de festa, tocando três ou quatro horas por noite, para ao final, recebe 1.200 reais por noite para três.

Pois quando um cantor sertanejo vem, canta uma hora e meia, as vezes embriagado e sai da festa com 1,5 (Hum milhão e meio no bolso) e, ainda sai falando mal do nordeste, das comidas e das pessoas. Isso aconteceu em quase todos os grandes palcos do Nordeste e até em pequenas cidades, como foi o caso de Belo Jardim em Pernambuco ou em Natal/RN, entre dezenas de outros.

Eu sempre fui desconfiado de tudo que quer ser grande demais, é o maior cuscuz, o maior bolo, a maior quadrilha, o maior São João, a maior cidade e nessa mania de grandeza, as vezes se esquecem de atenção com as verbas públicas e a falta de cuidado com o povo e as suas necessidades essenciais.

Esse foi o balanço que fiz das festas juninas de 2026, o que vi na prática foi um pavilhão de bets e outras marcas. Adeus tradição, independente de lei e de vontade política. O dinheiro público escorrendo pelo ralo, mas a propaganda mesmo é das marcas de refrigerante, cerveja, bets e bigtcs. Esse é um resumo de câncer e vício fantasiados de festejo junino.

*Por Belarmino Mariano. Imagem do Blog do Dércio e Blog cgretalhos. Memórias do parque do povo e Blog Caruaru Agora.

Nenhum comentário:

Postar um comentário