quinta-feira, 28 de novembro de 2024

Budismo Urbano Radical

Por Belarmino Mariano.

Nem tudo é sobre budismo, zem budismo e meditação transcendental. Às vezes é sobre stress urbano e motorista que não respeita faixas de pedestres. 

Nem tudo é sobre paz de espírito e mantras de controle dos egos egoístas. Às vezes é estirar o dedão maior de todos no sentido literal de VTNC! Vai tomar suco de caju! F0d@-s&! Podem lavar as nossas almas, a calma, a alegria, a nos sentirmos bem.

Se fosse um budista baiano nessa situação, em uma tradução literalmente diria, PNTC! Lá ele, VSF meu irmãozinho!!! Se saía seu axilado!!! Esse dedão estirado diz muita coisa, fala muito e tem mais que mil palavras.

Essa imagem me torna um budista mas consciente e direto. No budismo, nem tudo é passividade, parcimônia ou atingir o Nirvana sem ser atingido pelo meio.

Esse budista nos ensinou uma coisa, se o iluminado dá bobeira, pode morrer atropelado por um caminhão carregado de ignorância. Se morrer perde uma das 108 existências em sua evolução espiritual rumo ao Nirvana.

A ação do budista em tela é material e polêmica, para além dos princípios budistas, mas merece ser destacado como uma atitude de despertar e se manter vivo para atingir a iluminação.

Não sei qual a escola desse jovem budista, mas pela vestimenta lembra os budistas tailandeses, imersos em um país extremamente globalizado, industrializado e urbanizado. 

Logo, faz sentido imaginar que a tradição e/ou doutrina e filosofia do Buda, apontando literalmente para o "caminho do meio", para a "compaixão" e para escapar do sofrimento, doença, fome, intempéries e morte, entre outros males, passa por não morrer.

Fico imaginando que, para além de um budista atravessando as faixas de pedrestre, o motorista do caminhão pode ter dado uma buzinada daquelas, causando um susto grande no aprendiz de budismo. 

A outra imaginação é sobre o jovem budista, se tratando de um turista ocidental, em suas primeiras viagens para a Tailândia e no pacote, estavam previstas dez aulas sobre o budismo.

Mas vamos imaginar que, nem todos os budistas estejam no mesmo nível de autoconhecimento e autocontrole, capazes de superar todos os obstáculos do meio, sem sofrer interferências em seu centro de gravidade espiritual.

Existe uma linha tênue de esforços para se atingir a iluminação e o próprio Siddhartha Gautama, depois de muito relaxamento, concentração e meditação, atingiu a iluminação.

Por Belarmino Mariano/Sérgio Ricardo.

Obrigado ao amigo Sérgio Ricardo, pelo compartilhamento dessa imagem significativa.
Melhorou muito o meu estado de espírito.

quarta-feira, 27 de novembro de 2024

Manifesto Sobre as Abstrações da Saudade

Por Belarmino Mariano.

O que escrevo hoje é um manifesto sobre tristezas, lembranças e esquecimentos vividos e que se resumem em abstrações da saudade dilacerante em te amar.

Não se trata de uma apologia à tristeza, saudade ou solidão, pois as lembranças e memórias são companheiras inseparáveis e sistematicamente se rebelam, relembrando alegrias e tristezas do que foi vivido.

Ontem me peguei marejado de lembranças e as lágrimas escorridas eram líquido salgado que só a saudade matadeira derrama da gente sem dó nem piedade.

Ontem a noite me peguei a chorar muito, derramando lágrimas salobras, que escorriam pelo meu rosto como riacho escorre água pelos lajeados em lodo.

Chorei tanto, mas tanto, que as lágrimas tinham sabor de coração partido e espremido pela solidão de um amador que ama a dor de amar o teu olhar de caleidoscópio em labirintos infinitos.

Mesmo chorando me dispus a fazer um chá de sementes de erva-doce e aquele vapor de água em ebulição me acalmou a alma e minhas palpitações desaceleraram um pouco.

Depois de me derreter em lágrimas, tomar uns pequenos goles de erva-doce, fiquei horas espiando pela Janela da memória, com os olhos fixos ao nada e ao vazio do mundo escuro, procurava brechas para o passado e imaginando o quanto te perder, foi como nunca mais me achar.

O tempo é uma ilusão, mas estamos presos a esse tecido de memória e abstração imaginativa que chamamos cognitivo tempo. E pensar em você me faz lembrar da ideia do acaso e do nada entre nossos olhares apaixonados.

Essa loucura que é te amar não se mensura e vejo que, sem luz, perdi de ver o brilho dos teus olhos, mas minha mente insiste em não te perder de vista.

Você exerce fascínios em minha mente e a perturbadora saudade, me joga em um déjà vu sonhado que se repete em minhas lembranças, como loopings intermináveis, como os circulos ou aneis de Saturno, a deriva no oceano cósmico da via láctea.

Saudade e solidão como mulheres que estão em intermináveis conversas sobre o tempo e o clima. São parentes próximas e moram na mesma esfera celeste, se alimentam de lembranças e perdas, como se a vida fosse um perde e ganha danado e que não temos como controlar.

Senti a tua falta, te procurar em arriscado sobrevoou mental e nada encontrar é como mergulhar nas ilusões do passado, escolhas que não voltam atrás, pois o passado é uma quimera de nossas vagas lembranças sem sentido.

A saudade é um emaranhado de lembranças que nos conectam com o mundo, em que tudo foi desintegrado e se perdeu para sempre, mas as memórias que a mente consegue explorar, revelam em nossas prisões da solidão um gigantesco e frio vazio. 

Mesmo assim, te encontrar nessas abstrações metafóricas da memória é desesperador e não te sentir por perto me dá o mesmo frio no pé da barriga que foi de ver pela primeira vez.

Estar preso às fitas amarrotadas da saudade é um dilacerante e descontrolado ciclo de ilusão ao qual não temos saídas. São emoções, sentimentos e desejos que não temos como controlar de maneira consciente.

A saudade arranca pedaços de minha vida atual e o vai e vem da memória é um turbilhão de experiências que se perderam e só existem nas lembranças e nas ilusões de um tempo que não existe.

No grande silêncio do nosso passado, tudo é solidão e frio, em zonas mortas e escuras. Mas com uma velha laterna de conexões neurais, encontro maneiras de te encontrar, mesmo que seja no vazio e no escuro universo da antimatéria.

Minha saudade é pura abstração, mas insiste em permanecer ativa, mesmo que, nos escombros e regiões mortas do estranho passado, onde só a saudade consegue penetrar, como se procurasse sentido e existência onde nada existe.

No quebra-cabeça de nós faltam varias peças e muita coisa não se encaixa mais. Lembra quando você disse que não dava mais, que tinha que ser assim e ponto final?

Que ponto final que nada, choramos juntos, relembramos dos nossos sentimentos, revivemos as nossas experiências e fizemos um passo a passo dos nossos acertos e erros. 

Naquele momento existia lógica e fazia sentido, pois a vida nos empurava para outras frustrações, novas tentativas e outras possibilidades de quebrar a cara. Quem sabe outros carnavais e as mágoas seriam mergulhadas nas piscinas do esquecimento .

De que adianta achar que a saudade chega ao fim, se ela não tem limites, nem fronteiras? Basta um descuido em nossos mapas mentais e as lembranças derramam rios caudalosos do que vivemos juntos.

Mas isso não é o pior, pois as lembranças nos obrigam a imaginar utopias que as coisas tivessem sido diferentes. Aí você pega a sua vida e se põe a pensar no que não foi tudo isso?

Nos chamam de sapiens, sapiens, meio confirmando que temos uma consciência de que somos racionais. Mas nada dizem sobre essa revolução cognitiva dos nossos sentimentos, emoções, desejos e vontades. 

Não é apenas o nosso pensamento e a nossa razão das coisas. Isso é importante sim, mas não é e nunca será tudo. Só quem já sentiu nas entranhas da carne viva e no tecido externo da pele nua, os calafrios de amar, sabe que sabe, que a biologia não consegue explicar de onde vem nossos sentimentos.

"Nem só de pão vive o homem!"

A verdade dos poetas é feita de palavras e outras palavras, umas rimadas outras nem tanto, mas as verdades dos poetas são verdades de verdade, disso não tenho dúvidas.

As verdades dos poetas são feitas de palavras como pão e vinho, tinto, branco ou rosé e na verdade vos digo, poetas alimentam e matam a sede dos famintos de sentidos para a vida.

As velas dos poetas clareiam com palavras toda a obscuridade da noite fria e sem luz. São luminárias para respingar estrelas cadentes do céu de tua boca, atmosfera úmida a deslizar em tua língua nua.

As velas dos poetas nos levam para o alto mar das palavras, sem sairmos do cás do porto e alegres navegamos como marujos e piratas alados, sem o medo das tempestades.

Poetas são assim, um pouco de ti outro pouco de mim, poetas são palavras ao vento, que tocam nossa pele macia e como uma fina lâmina pode cortar toda nossa carne até tocar o fundo da alma e da alegria dos amores partidos e dilacerados.

Os punhais afiados dos poetas são palavras fundidas em brasa e chamas ardentes, como o fogo da paixão e o calor dos corpos flamejantes e desnudos que se lambem em mel e suor do orgasmo.

Do céu da tua boca, mergulho sem para-quedas em busca de tua língua úmida e encontro um abismo gostoso sabor agridoce de sábado a noite. 

A tua alma, calma e alegria consomem meu ser e viro arco e flecha a te flechar com as flechas do olhar. Fico sem palavras e me desmancho em pura poesia.
.....!.....!.....!.....
*Belarmino Mariano. Imagens das redes sociais.

terça-feira, 19 de novembro de 2024

Pupilas Dilatadas dos Olhos do Tempo

Por Belarmino Mariano.

Quando a Inteligência Artificial ainda era garatuja troglodita nas paredes escuras das cavernas, nos olhos de Cronos a certeza de que a vida dos mortais é breve e, em um simples exame de vista, quando menos esperarem, nem verão direito e estarão sendo engolidos pelo caos.

Pupilas dilatadas, dois oceanos em profunda escuridão. Uma sensação estranha de excesso de luminosidade, claridade que embaça tudo à nossa frente.

A enfermeira oftalmologista diz, relaxe, encoste o queixo nessa base e oberve esse X verde na tela. Uma espécie de luz ultra branca é disparada contra sua córnea e tudo vira uma complexa escuridão caótica.

Um universo ocular com ondas, feixes e fluxos energéticos em profusão de cores, córneas, iris, pupilas, cristalinos, retinas, nervos ópticos, esclera, máculas lúteias e humores vítreos resumem esse espetáculo que é a ilusão visual do mundo em nossa volta.

O olhar embaçado reflete essa vista cansada e preocupada com os desmantelos do mundo. Um olhar 6.0, ruim para longe, pior para perto. Reflexos de pelo menos 60 anos de vida, ócio, trabalho e estudos formais em ensino e aprendizagem. 

Da luz de candeeiro, querosene e pavio de algodão dos primeiros anos de "Ditadura Militar" e estudos, as atuais luzes tecnológicas de LED Made in China. Das folhas paltadas de caderno, as telas de tubo, até as finas telas de cristal líquido, tudo em um acumulado vai e vem de quem enxerga as superfícies do mundo material e imagina outros mundos fractais.

Pupilas dilatadas, delatando uma idade sob novos e maiores graus para perto e ou para longe, sob novos pontos de vista, pois já não vemos mais as minúsculas coisas do mundo como antes. 

Pupilas dilatadas são delatoras de possíveis glaucomas, cataratas e cegueira da diabetes, entre outros males da visão embasada pela dilatação pupilar. Esperamos que nada disso nos atinja em cheio.

Pupilas dilatadas revelam que, para além dos novos graus, ainda está tudo bem, nada de sustos ou sobressaltos nesse mundo de excessivas telas a poucas distâncias. Mas os cuidados e alertas do habilidoso olhar oftálmico foram feitos.

Agora é enfrentar os donos das óticas e suas vendedoras bem treinadas para te oferecer o melhor e mais caro. Primeiro as grandes marcas de armações e lentes cheias de películas anti reflexos, UHV e multifocais, depois continuar a te oferecer outras vantagens igualmente caras.

Tudo aos olhos da cara, ao vivo e a cores, com testemunhas oculares e as vistas. Você nem sente direito e chega: água gelada, cafezinho gourmet, sorvete, picolé e até pequenas taças com licor, conhaque, champanhe ou whisky.

Depois de dezenas de provas, armações de arames, resinas, aço, carbono e/ou titânio, tudo ao gosto do freguês, finalmente você encontra o que melhor lhe veste a face enrugada.

A vendedora, com a sua auxiliar imediata, atuam pensando no gosto do cliente, vão tecendo uma "Teia de Ariadne" ao redor do balcão espelhado. Uma fila de armações sob medida, das modas, tendências e gostos, outras refugadas pelo desinteresse do futuro rosto.

Não olhar as etiquetas de preços na perna dos óculos, antes de depositar a prova na cara é a maior armadilha, pois aqueles que se encaixam melhor, são sempre os mais caros da loja.

Quero aproveitar a minha armação antiga, pois é perfeita e ainda se encontra em excelente estado de conservação. Mas a velocidade de argumentos da vendedora que vai tentando nos convencer em mudar, revovar essa vestimenta, novos ares, pois os óculos são a moldura da face.

Não cair nessa lábia é muito difícil, pois a tentação é maior que a maçã nos lábios de Eva ou Lillithi. Mesmo assim, consegui escapar com vida. Mas, em novas artimanhas, ela conseguiu me convencer de vários novos filtros e tecnologias na nova lente que a "preço de ouro" ficou quase uma coisa pela outra.

A vendedora disse para não me preocupar, pois a ideia era simples, tudo seria facilitado em 12 vezes sem juros, nem correções. Perguntei como assim, se as taxas de juros do banco central estavam em 9,75 com lentes vindas da Europa, Japão ou Estados Unidos?

A vendedora rápida como uma linse, disse, será tudo dividido em parcelas iguais e sem acréscimo. Ela estava certa, mas eu sabia que os juros estavam bem embutidos em cada um daqueles 4,5 graus para perto e 1,75 graus para longe.

Para concluir essa saga de um melhor olhar, a danada da vendedora, com a calma de uma monja budista do Himalaia e a sagacidade de uma guepardo fêmea, me veio com o "pulo do gato". 

Era 5% de desconto à vista, ou uma promoção de outra lente da mesma para um óculos reserva. Duas lentes pelo preço de uma. Eu poderia trazer uma armação antiga ou comprar outra mais barata. Que tentação dos infernos das cuias. 

Agora eu poderia ter mais do mesmo e, a vendedora de novos horizontes, ainda jogou uma "pitada de pimenta malagueta" na conversa: "- óculos é assim, quem tem um, não tem nada e quem tem dois, sempre tem um!" 

Gota serena!!! Isso entrou como uma flecha na iris do meu olhar. Ela tinha razão, esse sempre foi meu maior medo. Ficar por semanas sem os óculos, perder esse bem precioso que já faz parte de minha condição pós-moderna de ciborgue, sempre foi meu maior trauma.

Como já estava definido que usaria minha antiga armação, lá vamos nós, na busca de uma armação mais barata e que fosse capaz de aguentar os trancos do cotidiano, pois os óculos já são partes de minha persona e alma de viajante cósmico.

Até sonhos já me ocorreram, em que, me desesperava porque não estava com meus óculos. Quem usa sabe o que é óculos-dependência para perto e para longe, para ambientes ensolarados ou salas com iluminação artificial.

Para fechar a nota ao final das contas, o brilho no olhar da vendedora de sonhos e, a minha satisfação em corrigir mais alguns graus de miopia e estigmatismo.

Para compensar as córneas usadas como pagamento, no finalzinho das compras, a astuta mercantilista, me trouxe uns quatro modelos de óculos de Sol para escolher um como brinde da loja. 

Pensei, essa danada sabe negociar e saí da loja com um olhar liso no rosto, mas com um sorriso de agradecimento nos olhos, que em breve receberam os devidos ajustes oftálmicos.

A moral dessa história é a lógica imoral de como o capital nos explora, até a última gota de "humor vítreo", termo científico da oftalmologia para lágrimas nos olhos.

Por Belarmino Mariano. Retnoografia.