quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

"Isso é o que eu ainda me lembro"

Por Belarmino Mariano*

Seu nome de batismo é Maria do Carmo dos Santos, Dona Carminha para os íntimos e DoCarmo para os de fora da casa. Ela tem um apego muito grande ao Catolicismo Apostólico Romano que é quase inexplicável pelos santos das raízes das matas e das águas sagradas.

Seu maior apego era com o menino Jesus, talvez explicado pela reza que aprendeu sobre o "Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador". E nas horas de pensar imaginava porque aquele danadinho não era pretinho igualzinho a ela? 

Mas sempre lembrava das coisas dos milagres, da Santa Maria que foi acordada no meio da noite, por um Anjo do Senhor e de uma luz angelical das graças de Deus, ficou grávida e teve seu branquinho de olhos azuis. Ela disse que nunca entendeu aquele Jesus branco e de cabelos sedosos e loiros, mas assim ele era pintado.

Sempre gosta de vestir sua roupa branca com detalhes em azul, colocar seu lenço na cabeça e assistir às missas matinais de domingo, na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Boa Viagem. Mesmo com dificuldades sobe os degraus com a ajuda de Ingrid, sua neta e companheira de todas as horas. Sempre leva um trocado para a "caixa das almas" e as oferendas ao altar do senhor crucificado.

Dona Carminha já é uma mulher velha e calejada pelo tempo e pelo trabalho duro, só saiu da roça quando já estava beirando os 65 anos de idade. Era mulher de cabo de enxada, enxadão, foice e machado. Limpava mato, arrancava toco e fazia coivara para esperar as chuvas e fazer a plantação.

Ele disse que uma das suas melhores lembranças era ir ao roçado em época de chuva fina para apanhar uma bacia de feijão de corda e um jerimum caboclo para almoçar com uma galinha de capoeira. Debulhar aquele feijão e colher o coentro e as outras verduras não tinha preço para ela.

De dentro da sua casinha de tijolos batidos, sentia muita falta do fogão de lenha, do seu moinho, pilão e da sua tábua acima da mesa da cozinha, presa com arames nos caibros da casa. Lá ela guardava caldeirão de coalhada, queijo de coalho, de manteiga e carne de sol, charque e defumados. 

Seus bichos eram como filhos. Criados em chiqueiros de galinhas, de porco, suas cabras e duas vaquinhas pé duro. Era um trabalho extra, mas gratificante, pois sempre tinha leite, ovos e vez ou outra, carne para o almoço do domingo. Criar animais sempre foi do seu agrado, nunca viu isso como serviço pesado.

De tudo ela sabia plantar, feijão de corda, feijão de arranca, maniva de macaxeira e de mandioca, fava, jerimum e melancia, fruteiras como jaca, caju e abacate, manga goiaba e laranja cravo. De tudo tinha um pouco naquela terrinha quilombola. Inhame, cará e batata doce eram seus serviços preferidos, pois em meio ao baixio dos alagados, também plantavam suas verduras e temperos.

Até umas touceiras de bananeiras e cana caiana ela cuidava de plantar. Ela plantava gergelim do preto e do branco, tinha coqueiro anão e gigante e até uns pé de café faziam o acero da mata da Nascente do riacho das pedrinhas. 

Touceiras de agave para sisal e algodão arbóreo figuravam em seu cenário de lembranças e lá eles sabiam fazer cordas e panelas de barro, pois a argila fina das baixadas era de excelente qualidade para as louceiras do lugar. Ela fazia tudo com as mãos e daquele barro mole nascia a sua arte ancestral, pois se lembra que aprendeu com sua bisavó.

Sua máquina velha de costura era manual, mas nas horas vagas e na luz de candeeiro, fazia as costuras dos filhos e da vizinhança. Lapinha, reisado, novenas para São Sebastião e festas juninas sempre pediam um corte de tecido para enfeitar as pastorinhas e moças do povoado. Ela se orgulhava em ver aquele tecido de chitas ganhando forma e se transformando em roupas coloridas.

Ela gostava de manter essas tradições e das festas juninas, eram as que ela mais gostava, em especial dos forró de pé calçada, com a fogueira acesa e a criançada queimando bombril em um cordão, fazia as girandas de fogo e luz que clareava a escuridão das noites frias do brejo.

Numa lateral da casa sempre cuidava de ter umas latadas com uns canteiros de coentro, cebolinha e pimentão e por onde escorria água de sua pia improvisada, escorria água e por lá nascia tomateiros e maracujá se estendia por cima das latadas e pelos pés de urucum e feijão guandu do oitão da casa. 

Até os mamoeiros e limoeiros ficavam cobertos pelas ramagens de maracujá. O cheiro das flores atraia as abelhas jataí, uruçu e até as abelhas africanas apareciam para colher o néctar das flores de suas plantações.

Isso agora era tudo lembranças dos tempos de juventude, de moça formosa e mulher trabalhadeira de um tempo farturas que não volta mais. Teve que ir pra cidade pois a cana-de-açúcar tomou conta de tudo, até mesmo nas terras acidentadas do brejo.

Dona Carminha, no elevado dos seus 87 anos de labuta, reclama muito das dores nas costas e do reumatismo, pressão alta, diabetes e colesterol. Ela mesmo se lamenta que hoje em dia parece um poço de doenças. Estava se lembrando que em 2020, a infeliz da COVID-19, quase lhe carregava para as terras do Senhor, mas havia escapado por muito pouco.

Agora não tem muito o que fazer, vive a depender de uma aposentadoria rural e da ajuda dos filhos e dos netos. Aos domingos a casa se enche de gente, as noras, cunhados, as bisnetas e bisnetos sempre aparecem para ouvir suas histórias da roça. 

Lhe ouvindo atentamente, ela segurou em meu braço e disse, "Hoje em dia a minha memória é fraca e o que eu conto é isso, mas sou muito orgulhosa e feliz em ser gente e em saber que deixei muitas sementes plantadas para honra e graça do Senhor". 

Ao acordar, vi que estava sonhando e que, não importa a cor ou credo, mas a fé enquanto esperança de viver. Minha Mãe Divina, minha, Petra Velha veio aos meus aposentos para relembrar que é véspera de Natal. 

*Por Belarmino Mariano. Imagem do autor. Um sonho que dedico a Emilia Moreira e a todas as mulheres que labutam em seus pedaços de chão. Paulo De Luna Freire e seu Sítio Utopia.

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