Tem uma pintura tibetana, dessas que a gente olha e acha bonita, mas não entende direito. Parece complicada demais pra ser sobre a gente, mas é. Mostra um monge subindo uma montanha em círculos, puxando um elefante por uma corda. No começo, o bicho é preto, enorme, descontrolado, derrubando tudo que encontra. Lá no topo, ele aparece branco, calmo, quase transparente e o monge nem segura mais a corda. Os dois vão juntos, leves, subindo em direção a um céu cheio de nuvens douradas.
É uma metáfora budista sobre a mente. O elefante é você. Sua cabeça. Seus pensamentos. Aquele macaco que aparece pulando em cima dele, puxando pra um lado, distraindo, fazendo bagunça esse é o seu desejo de ser visto. De ser comentado. De ser curtido. Um macaquinho sem freio que mora dentro de cada um de nós e que hoje tem nome de aplicativo: notificação.
A gente passou a pedir aprovação como quem pede ar. Posta uma foto e fica encarando a tela, esperando o número subir como se aquilo fosse um atestado de existência. Cadê o like? Cadê o comentário? Alguém pra confirmar que eu estou aqui, que eu importo, que o que eu fiz hoje realmente aconteceu? Chegamos num ponto em que precisamos que estranhos validem nosso café da manhã. E nem percebemos mais o tamanho do ridículo.
No desenho, o elefante escuro do começo é isso: a mente desgovernada, correndo atrás de prazer rápido, de reconhecimento, de barulho. E a trilha não é fácil. Tem fogo. Tem precipício. Tem queda. Cada curva é uma recaída. Você jura que vai largar o celular, e dez minutos depois está ali de novo, contando corações vermelhos como se fossem votos de amor.
Mas ali, naquela pintura, ninguém prometeu fama. Prometeram silêncio. Prometeram que, se você parar de correr atrás de plateia, sobra espaço pra outra coisa mais sólida, mais sua. Paz, presença, sei lá. O monge não está performando. Não tem holofote, não tem story, não tem ninguém aplaudindo a subida dele. E é justamente por isso que ele sobe.
A gente trocou a montanha pela vitrine. Trocou o elefante de dentro pelo elefante de fora aquele que a gente exibe, filtra, edita, legendas, hashtags. E esqueceu que o trabalho de verdade nunca foi mostrar o bicho domado pros outros aplaudirem. Era domá-lo em silêncio. Sem plateia. Sem prêmio. Sem like.
No fim da pintura, o elefante sobe sozinho, quase invisível, dissolvido nas nuvens. Ninguém bateu palmas. Não tinha ninguém olhando. Só o caminho percorrido, finalmente, sem precisar que alguém visse.
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