sexta-feira, 5 de junho de 2026

A BIBLIOTECA DE TITÃ

.  Por Joana Belarmino*

Futucando as redes sociais e conversando com minha irmã Joana Belarmino, estava procurando um conto que ela escreveu por volta de 2008. Queria presentear minha filha, Brenda Mariano, pelo décimo oitavo ano de vida e em especial, pela sua escolha acadêmica em iniciar o Curso de FÍSICA pela UFCG. Sua escolha por "uma ciência dura", tanto a física teórica, quanto a experimental, a fisica astronomica, quântica, de materiais escuras e buracos negros ou quasares. Pensei, ela também merece navegar pela literatura de sua amada tia joaninha 🐞. Então finalmente encontrei "A Biblioteca de Titã". Espero que faça uma boa viagem de volta a Terra.
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"A Biblioteca de Titã"

Diário de bordo, ano 2237, mês 9.
O disco desliza suavemente, vencendo os confins do espaço interestelar, percorrendo com tranqüilidade as primeiras horas da minha viagem de volta à Terra. Escrevo esse diário ao modo dos meus antepassados longínquos, traçando as letras nesse fino e perfumado papel reciclado, deliciando-me com esse diálogo entre a mão e o cérebro, esse trabalho artesanal de construir os pensamentos em molduras de letras curvilíneas,esse trabalho surpreendente de pensar e dizer, tarefa tão pouco comum em nossa era maquínica. 

Há calma e silêncio por aqui. Mas o silêncio, nesta pequena nave executiva de porte doméstico, é pleno de ocupação. Enquanto estou aqui, confortavelmente sentada à minha mesinha de trabalho, diante de uma xícara de chá que o pequeno Rad me preparou,enquanto traço as linhas da minha última experiência nesse meu diário, uma turba de sensores invisíveis e infatigáveis rastreiam o acontecer da nave... digo, o acontecer na nave. Minuto a minuto, examinam o chá, medem as quantidades já bebidas, enviam em cópia para o cérebro central, as primeiras linhas escritas. 
Daqui a meia hora, quando o primeiro relatório pulsar, como um pequeno peixe trêmulo, no ponto de contato mais próximo da estação de comonicações geoespaciais, quando em segundos, o relatório for despachado para os outros pontos de contato, centenas de bilhões de pessoas saberão que, as 17/10 min de hoje, na nave Pandora, a pesquisadora de línguas galácticas Ana Falcão parou de escrever em seu diário reciclado para coçar o pé, com sua própria mão, dispensando os estímulos elétricos do seu sapato espacial. 
Teimo em escrever um diário pessoal, quando as normas pedem um relato objetivo e sucinto. Cada gole de chá toca sem molhar, uma quase angústia, uma senssação de não pertencimento a esse mundo de agora. Síndrome degenerativa do par de genes 2050, diz-me a genética. Tratamento indispensável ao retornar, diz-me a agenda do plano médico. Não pensar nisso. Voltar no tempo. Traçar a narrativa da minha experiência na estranha biblioteca de Titã. 

Diário de bordo, ano 2237, mês 2. 
A alegria que superexcitava meus neurônios, naquela manhã de fevereiro, devia estar a transbordar em cada um dos pontos de contato dos mais de quatrocentos bilhões de sóis conectados. 
Recebera a notícia de que o meu trabalho sobre o fracasso da língua unitária nos subplanetas do sistema solar me valera o prêmio Titã. Para terem uma idéia da importância do prêmio Titã, saibam que ele só é editado uma vez, a cada dez anos. Com a rubrica da Inteligentsia galáctica, o prêmio assegura ao vencedor, a posse de uma pequena nave executiva de porte doméstico, para uma viagem de três meses de visita à biblioteca Titã. 
Na volta, o premiado ganha a cátedra da disciplina de Exobiologia lingüística, das universidades reunidas do sistema solar, pólo da terra. Nada havia me preparado para a experiência surpreendente que foram aqueles três meses, na biblioteca que era, ao mesmo tempo, a menor do universo, e, entretanto, a mais rica de todas em conhecimento. 
Quando cessaram as perturbações próprias à aterrisagem, quando deixou de se ouvir o zumbido intenso do reator central, o pequeno Rad já estava pronto para o desembarque, com sua roupa inteligente bojuda dos seus apetrechos de cozinha e todos os equipamentos indispensáveis à nossa estada na biblioteca. Checou e equilibrou os pesos do meu traje, a fim de minimizar os efeitos da gravidade de Titã.
Experimentou sorrir-me, e, na sua voz quase infantil, modulada de acordo com minhas preferências, disse, “Bem vinda ao mundo cinzento de Titã, Ana. Já podemos desembarcar. E orientou-me para a entrada da pequena cápsula de transporte que a nave Pandora havia estendido para nós, de uma das suas laterais.
Tínhamos aterrisado na face norte de Titã, e os múltiplos olhos do pequeno Rad iam me transmitindo as primeiras informações, enquanto a cápsula de transportes conduzia-nos para rocha firme. “Chuva recente de metano. Temperatura ambiente, -94 graus.” 
 Outros instrumentos inteligentes também despegavam-se da nave pandora, trabalhando numa pista que nos permitisse entrar na biblioteca, único edifício existente naquele satélite, encravado no topo de uma colina, e até agora invisível, mesmo para os meus artefatos ópticos. Uma suspensão brusca de movimento indicou-nos que a cápsula tinha chegado ao fim da sua curta viagem. 
Acostumada às viagens galácticas, impressionou-me entretanto o rugido dos ventos solares, a fustigarem implacavelmente aqele pequeno mundo gelado. Hora de voltar à nave mãe, cápsula e instrumentos inteligentes atracados, fugindo do vento solar. Uma pista inclinava-se diante de nós, Rad na frente, eu a seguir o seu pequeno rastro luminescente. 
Não precisávamos fazer grande esforço. Uma força magnética impulsionava-nos para o topo, onde pude ver uma passagem circular, e, antes que formasse alguma impressão, fui tragada. A descida para dentro das entranhas de Titã não era de todo agradável. Eu e Rad ricocheteávamos entre paredes estreitas de gelo rochoso, descendo sempre. Já me perguntava quando aquilo acabaria, quando meu sapato espacial finalmente impactou com solo duro e plano. “bem vinda à biblioteca de Titã”, disse-me Rad, numa voz cristalina onde não havia qualquer traço de cansaço. 
Ajustei meus instrumentos ópticos e vi. Vi um edifício hexagonal minúsculo, que entretanto parecia reproduzir-se a si mesmo, minuto a minuto, como uma divisão multicelular pulsante, a crescer e encolher-se, aumentar e retornar ao seu tamanho inicial, pura dança a exibir as letras da sua arquitetura. 
Estava eu, diante da réplica da biblioteca de Babel, imaginada por Borges, e que agora me pertenceria, por três exatos meses do tempo cosmológico. A pequena porta abriu para nós, um mundo silencioso e antigo, com cheiro de livros. Um mundo quente e quieto, como se fora um ninho aconchegante a nos pedir desculpa pela hostilidade gelada e barulhenta do exterior de Titã.
Um mundo onde o tempo não existia senão, como um traçado permanente de linhas hexagonais que se afunilavam, se bifurcavam em pontos tênues de encontro, alastravam-se em picadas imprevisíveis, interrompidas aqui e além, sem nenhum aviso, para recomeço de outro oceano hexagonal de linhas.
Olhei à minha volta, auxiliada por uma luz calma a brilhar de pequenas esferas, pendentes do teto. Embora tudo ali transpirasse a livros, embora tresandasse ali, uma narrativa subterrânea de todas as escrituras do mundo, nada indicava que houvesse estantes, nem livros. 
As paredes, à primeira vista lisas, de um tom cinza claro, aos poucos ganhavam pequenas nervuras, que se estriavam em delicados matizes de cinza, irizavam-se em pequenas bolhas, como se aprontassem, por conta própria, uma estrutura à prova de som, semelhante a cascas de ovos. 
A meu lado, pareceu-me que o pequeno Rad exultava de uma alegria nova, a percutir em todas as suas engrenagens. “Vou lhe mostrar a biblioteca, venha”. Seguí-o intrigada pelo primeiro pavimento, ouvindo seu menu de explicações, na voz que ganhava em qualidade estereofônica naquele lugar estranho, feito de pequenez e de grandeza. 
“Já deve ter percebido que o designer da biblioteca é de inspiração Borgeana”, disse-me ele enquanto fitávamos o rebentar de mais uma pequena bolha, ao lado da escada que dava acesso ao segundo pavimento hexagonal. E prosseguiu enquanto subíamos a escada: “A teoria das cordas, em suas mais recentes descobertas, forneceu à biblioteca, a sua estrutura física”.
Lembrava-me vagamente das hipóteses fundamentais da teoria das cordas. O universo em dez dimensões, a teoria dos buracos de minhoca, dimensões de espaço encolhidas numa dimensão qualquer do tempo.
“Andaríamos por aqui ad infinitum”, disse-me ele com voz quase nostálgica. “entretanto nossa visita é datada, e assim urge que lhe explique o que são os nodos centrais da biblioteca”.
Paramos a meio do segundo pavimento, e materializou-se a meus pés, um pequeno círculo vermelho no chão. “Isto é um nodo central”, disse-me ele. Vasculhei a memória à procura de alguma materialidade para aquele conceito. Rad veio em meu socorro.
“Um nodo central é um ponto vazio, que entretanto comunica-se com a mente do mundo, e traz para cá todos os livros. Os que já foram escritos, os que nunca se concluíram, aqueles por escrever, os livros imaginados e sonhados”. 
Mirou o pequeno círculo com quase reverência e continuou: “Temos aqui a comprovação prática de uma teoria antiga, esboçada no século XX, pelo inventivo teórico David Bohn, que pressupôs a existência de uma mente no mundo, apta a conectar-se ou ser conectada por cada mente individual”. É por via dessa mente do mundo, que capturamos os livros, e todo o seu entorno”. 
A pergunta que inchava dentro de mim, ganhou corpo e ribombou para dentro do círculo vermelho, produzindo um eco fantasmagórico. “E onde estão os livros Rad? Onde estão os livros nesse buraco de minhoca?” O riso da máquina adquiriu um tom surprendentemente humano. Extraiu de um dos seus múltiplos enclaves, uma espécie de varinha mágica, uma caneta sem ponta, cor de madeira que me entregou.
 “Apresento-lhe a sua caneta quântica, forjada para um único fim, investigar a biblioteca de Titã e pronta a destruir-se minutos antes de ultrapassarmos a porta de saída. toque em qualquer uma dessas bolhas.” Fiz o gesto indicado. A bolha contactada como que tremeluziu, alargou-se e explodiu libertando um bicho. Sim, um bichinho escamado e pulsante, ínfima sílaba do universo hexagonal que a continha.
Toquei novamente no minúsculo ser e suas escamas abriram-se em frases brilhantes. Ajustei meus instrumentos ópticos e li “a Divina Comédia”. Sim, ali em escamas, a magistral obra da angústia do ser, em toda a sua plenitude. Toquei novamente no livro, e a obrazinha mostrou-me a enfiada dos homens e mulheres que a haviam lido ao longo dos tempos. Outro toque, e vi outras obras de enlace, ensaios críticos, artigos jornalísticos, enfim, tudo o que já se produzira acerca da narrativa de Dante Alighière. E de posse daquela caneta quântica, conheci assombrada os prodígios da biblioteca de Titã. 
Vi os livros inacabados, vi o capítulo da arte produzida pelos robôs, vi a cápsula das produções extra terrestres, vi os livros futuros, pulsando uma linguagem desconhecida, como aquela grafia que espantara Borges, escrita homogênea das letras “ M C V perversamente repetidas da primeira linha até à última.” 
Vi os livros, os antigos e os novos, antes de serem escritos, vi os livros escrevendo-se, a mão de cada escritor, no momento exato de traçar o ponto final. Os livros ali podiam estar vivos, atualizando-se, para depois fecharem-se em suas pequenas crostas, não ocupando senão um pequeno entalhe quase invisível na parede da biblioteca.
Os três meses vividos na biblioteca de Titã, foram para mim, meses de aprendizado, fascinação, medo e angústia. Desejei um mistério, um lugar escuro, um útero, uma regressão absoluta, e a crônica da minha angústia amanheceu em bolha marrom escura, num livro de crônicas do futuro.
Quis parar de pensar, e a biblioteca mostrou-me as múltiplas formas de morte, asssim como as páginas e páginas escritas num tempo infantil em que os homens forjaram a narrativa da vida eterna. Aspirei por um livro branco, sem qualquer letra escrita, e a biblioteca ofertou-me a quota do meu desejo, em páginas e páginas limpas e escorreitas, sem qualquer ranhura, páginas que o meu imaginário doente preenchia com sílabas indecifráveis forjadas pelos meus genes defeituosos.
Cerrei os olhos, ocultei-me para além dos escaninhos da memória, e mesmo ali, ainda havia uma híbrida narrativa animal do meu desespero. Volto para casa com a saliva íntima de todas as línguas vivas. Volto para casa com um entalhe novo na minha angústia velha, bolha marrom que vive e pulsa em diapasão, os ecos de uma biblioteca total. 
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*Joana Belarmino de Sousa é jornalista, Bel. em Comunicação Social (Jornalismo) pela Universidade Federal da Paraíba, 1981; Mestra em Ciências Sociais pela mesma universidade, 1996; Doutora em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2004. É professora Titular do Curso de Jornalismo da Universidade Federal da Paraíba, tendo iniciado a docência em 1994. Foi a primeira coordenadora do Programa de Pós-graduação em Jornalismo da UFPB. Desenvolve pesquisas nas áreas de acessibilidade à comunicação e ao jornalismo, ciberativismo, cegueira e percepção tátil, arte, literatura e comunicação. 
Mantém o blog Barrados no Braille 
Fonte: SOUSA, Joana Belarmino de . A biblioteca de Titã. Rio de Janeiro: Corifeu, 2008 (Conto).
Imagem da Nasa.

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